29 jan 2019

Momento Safesui: variações genéticas e antigênicas dos genótipos circulantes

Anteriormente não se acreditava em variações genéticas e antigênicas entre os diferentes genótipos e tipos de PCV2. Entretanto, alguns autores ao realizarem estudos retrospectivos de sequenciamento em tecidos armazenados, antes mesmo de ter sido descoberta a circovirose, verificaram a presença do vírus da circovirose, mesmo sem sintomatologia clínica, sendo o PCV2a o mais predominante. Porém, após o diagnóstico de quadros clínicos de circovirose e doenças associadas ao circovírus suíno (PCVAD), o genótipo mais predominante passou a ser o PCV2b, em detrimento ao PCV2a, demonstrando que realmente houve evolução genética do vírus com alterações antigênicas (Cortey et al., 2011; Ciacci-Zanella et al., 2006, Gava et al., 2017).      

Essas variações antigênicas entre os diferentes genótipos de circovírus foram comprovadas por diversos estudos em uma metanálise, demonstrando quadros clínicos mais severos associados ao aumento dos genótipos b e d, ratificando uma maior virulência dos genótipos b e d quando comparado ao PCV2a (Cortey et al., 2011; Cruz et al., 2018). Além disso, foi verificado que a virulência das variantes de PCV2 que causam doença clínica associada à circovirose (PCVAD) é maior quando comparada às variantes causadoras de doença subclínica, demonstrando uma evolução do vírus com mutações em pontos importantes e específicos da região ORF2 relacionados diretamente à resposta imune (Lefebvre et al., 2008).

Além de ser uma região responsável pela produção de anticorpos (Ac), a região ORF2 é a responsável por determinar a diferença entre os diferentes genótipos do PCV2, que, consequentemente, poderão continuar a produzir anticorpos, ou então, não apresentarão resposta específica a uma determinada região/epítopo. Um estudo conduzido por Gava et al (2017) demonstrou que de 11 casos de circovirose clínica em leitões presentes em oito granjas na região sul do país, com histórico de falha vacinal, houve maior circulação do PCV2b e PCV2d, sem a presença do PCV2a, sendo observadas mutações em pontos específicos na região ORF2. Estas possíveis falhas vacinais, as quais vêm sendo observadas mais frequentemente em planteis vacinados, podem ser decorrentes de mutações pontuais em locais próximos a regiões de importância para a resposta imune ocorrida durante a evolução do PCV2, as quais podem ter impedido o desencadeamento de algumas respostas imunes específicas a esta região de mutação.

Isto pode ser demonstrado em um estudo onde de 16 anticorpos monoclonais produzidos contra o PCV2a, quatro (4) não apresentam reação alguma sobre o genotipo de PCV2b, o que indica uma importante falha imunológica, uma vez que 25% dos Ac não se ligaram ao antígeno (Ag) (Lefebvre et al., 2008). Resultados similares foram demonstrados em um estudo utilizando Ac policlonais, onde foi observada uma falha vacinal em 25% dos leitões vacinados com vacina comercial PCV2a em desafios com PCV2d (Karuppannan & Opriessnig, 2017). Outro estudo mais recente também demonstrou alteração de patogenicidade do vírus, sendo o PCV2b mais patogênico e alteração no processo de reconhecimento de Ac em isolados PCV2b, comprovando realmente haver um escape de imunidade (Cruz et al., 2018).

Com os dados apresentados acima pode-se dizer que apesar das vacinas atuais baseadas em PCV2a conferirem proteção aos animais, provavelmente há alguma falha em termos de proteção frente à doença em um percentual do plantel, demonstrando que os genótipos PCV2b ou PCV2d podem apresentar alguma vantagem em relação ao PCV2a em se replicar e se manter em leitões de plantéis vacinados.

     

Referências Literárias

Ciacci-Zanella J R, Morés N, Simon N L, de Oliveira S R, Gava D. Identificação do circovírus suíno tipo 2 por reação em cadeia da polimerase e por imunohistoquimica em tecidos suínos arquivados desde 1988 no Brasil

Cortey M, Pileri E, Sibila M. Pujols J. Balasch M. Plana J, Segalés J. Genotypic shift of porcine circovírus type 2 from PCV2a to PCV2b in Spain from 1985 to 2008. The Veterinary Journal 187 (2011) 363–368.

Cruz TF, Magrob AJ, de Castro AMMG, Pedraza-Ordoñeze FJ, Tsunemif M, Perahiag D, Araújo Jr JP In vitro and in silico studies reveal capsid-mutant Porcine circovirus 2b with novel cytopathogenic and structural characteristics. Virus Research 251 (2018) 22-33.

Gava D, Serrão VHB, Fernandes LT, Cantão ME, Ciacci-Zanella JR, Morés N, Schaefer R. Structure analysis of capsid protein of Porcine circovirus type 2 from pigs with systemic disease. Brazilian Journal of Mycrobiology 49 (2018) 351-357.

Karuppannan AK. and Opriessnig T. Porcine Circovirus Type 2 (PCV2) Vaccines in the Context of Current Molecular Epidemiology. Viruses 2017, 9, 99.

Lefebvre, D. J., Costers S, Doorsselaere JV, Misinzo G Delputte PL, Nauwynck HJ. Antigenic differences among porcine circovirus type 2 strains, as demonstrated by the use of monoclonal antibodies Journal of General Virology (2008), 89, 177–187

 

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Andrea Panzardi

Especialista técnica em Biológicos na Ourofino Saúde Animal

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