Mastite afeta a eficiência reprodutiva das fêmeas. Como reverter esse quadro?

08 nov 2016

Mastite afeta a eficiência reprodutiva das fêmeas. Como reverter esse quadro?

 A integridade sanitária é um dos principais requisitos necessários para que as fêmeas bovinas possam exibir seu potencial máximo de produção leiteira. Nesse contexto, devem-se destacar enfermidades de alta incidência nos rebanhos que são capazes de desencadear efeitos deletérios na produção de leite e fertilidade da fêmea. Dessa forma, é imprescindível compreender os mecanismos que estão envolvidos nesse cenário para desenvolver novas estratégias para solucionar esse problema e, consequentemente, melhorar a eficiência das propriedades leiteiras brasileiras.

A mastite é a doença de maior importância nos rebanhos leiteiros e ocorre em média em 20 a 40% das fêmeas em lactação (Ramírez et al., 2014), provocando as maiores perdas econômicas para a indústria láctea (Nielsen et al., 2009). Na grande maioria das vezes são mensurados apenas os prejuízos diretos como a redução da produção de leite, descarte de leite e de animais, custo com medicamentos e funcionários. Entretanto, existem ainda os prejuízos indiretos que são aqueles associados aos efeitos negativos que a mastite é capaz de provocar na fertilidade das fêmeas.

Diversos estudos sugerem haver inúmeras alterações no eixo hipotálamo-hipófise-gonadal com consequentes reflexos nos parâmetros reprodutivos (Rahman et al., 2012). Essa redução da eficiência reprodutiva não está relacionada somente à forma clínica da mastite, mas também à subclínica (Schrick et al., 2001). Ainda, a ocorrência desses efeitos não é estritamente dependente da alta produção leiteira dos animais (Nava-Trujillo et al., 2010). Dados na literatura mostraram que animais com histórico de mastite apresentam menor rede de vascularização no ovário, maior ocorrência de tecido conectivo (fibrose) no estroma ovariano e comprometimento do desenvolvimento folicular inicial e final (Rahman et al., 2012). Também foram relatadas menor pulsatilidade de LH, com consequente redução na produção de estradiol, menor expressão de estro, atraso na ovulação e alteração da sensibilidade endometrial à prostaglandina e ocitocina (Rahman et al., 2012). Porém, a relação do efeito da mastite na funcionalidade do corpo lúteo é controversa na literatura.

É importante lembrar também que quando a mastite ocorre na forma aguda há uma elevação da temperatura corpórea. Esse fator está diretamente relacionado à redução da qualidade oocitária e menor sobrevivência embrionária (Rahman et al., 2012). Todos esses fatores culminam em queda de até 28,4% na taxa de prenhez após inseminação artificial (Bijker et al., 2015), refletindo no desempenho reprodutivo ao aumentar o número de serviços por concepção (Barker et al., 1998; Schrick et al., 2001) e período de serviço (intervalo parto a concepção).

Frente às inúmeras alterações reprodutivas acima relatadas é essencial estabelecer um programa reprodutivo efetivo. Dessa forma, estudos mostram que a eficiência reprodutiva de fêmeas com mastite subclínica pode ser incrementada utilizando protocolos para inseminação artificial em tempo-fixo (IATF), no intuito de se melhorar as taxas de concepção (Roth and Wolfenson, 2016). Ainda, é importante implantar um programa de controle de mastite para reduzir os reflexos negativos na reprodução das fêmeas. Portanto, é necessário trabalhar a reprodução e a sanidade da glândula mamária simultaneamente para obter sinergismo entre as ações e garantir adequado desempenho produtivo nas propriedades leiteiras.

Uso do Meloxicam nos protocolos de tratamentos de mastite

Os sinais clínicos que ocorrem durante os quadros de mastite aguda são decorrentes da resposta inflamatória frente à infecção. Diante disso, a inclusão de anti-inflamatórios no tratamento da mastite clínica é indicada para reduzir os sinais clínicos e retomar a capacidade produtiva da glândula mamária mais rapidamente (Vangroenweghe et al., 2005; Suojala et al., 2013).

Os anti-inflamatórios não-esteroidais (AINEs) têm capacidade anti-inflamatória, analgésica e antipirética. Dentre esses AINES para bovinos, o meloxicam é o que apresenta maior potencial anti-inflamatório e sem efeitos adversos. Essa segurança clínica está relacionada à inibição seletiva da enzima COX-2 (associada ao processo inflamatório), em relação à COX-1 (mantém a integridade da mucosa gastrointestinal, ajuda na agregação plaquetária e aumenta o fluxo sanguíneo renal; Van Hecken et al., 2000; Lees et al., 2004).

O uso do meloxicam no protocolo de tratamento de mastite incrementa a eficiência do tratamento e ameniza os efeitos negativos que a mastite causa na reprodução. Dados na literatura sugerem que essa estratégia é capaz de reduzir a concentração de prostaglandina em quadros de endotoxemia (Königsson et al., 2002) e melhorar rapidamente os sinais clínicos da mastite (Fitzpatrick et al., 2013). Ainda, os AINES reduzem os efeitos negativos da mastite no desempenho reprodutivo através da redução da concentração de prostaglandina, via liberação de gonadotrofinas e/ou na esteroidogênese (Hockett et al., 2000, 2005; Lavon et al., 2011).

Para avaliar o efeito do meloxicam associado ao antimicrobiano para tratamento de mastites clínicas leves e moderadas, foi realizado um estudo em rebanhos de seis países diferentes (Bélgica, França, Itália, Espanha, Holanda e Reino Unido; McDougall et al., 2016). O objetivo foi avaliar o efeito da adição do meloxicam ao protocolo padrão de tratamento de casos leves e moderados de mastite clínica. Para isso foram utilizadas aproximadamente 7.800 vacas em regime de duas ordenhas diárias. Desse total, foram selecionadas vacas com até 120 dias de lactação e com mastite clínica leve e moderada em apenas um dos quartos mamários. Um grupo das vacas recebeu 0,5 mg/kg de meloxicam, enquanto o outro recebeu apenas placebo (controle). Ainda, uma associação de 200 mg de cefalexina e 133 mg canamicina foi administrada em todos os animais em intervalos de 24 horas, por até quatro dias. Foram verificados os resultados abaixo:

  • Efeitos no tratamento da mastite: as fêmeas que receberam o meloxicam nos protocolos de tratamento apresentaram maior taxa de cura microbiológica (67,8%) quando comparada às vacas do grupo controle (sem meloxicam - 56,3%).

  • Efeitos na fertilidade das fêmeas: foi observado que o uso de meloxicam nos protocolos de tratamento para mastite aumentou a proporção de vacas prenhes na primeira inseminação e aos 120 dias após o parto. Além disso, para esse grupo também foi necessário menor número de inseminações artificiais para que as fêmeas se tornassem gestantes (nº IA/concepção).

Pode-se concluir com o estudo que o uso do meloxicam associado à terapia com antimicrobianos para tratamento de casos leves e moderados de mastite resulta em maior probabilidade de cura microbiológica e melhora os índices reprodutivos das fêmeas tratadas (maior concepção à primeira IA, maior probabilidade de prenhez até os 120 dias após o parto, reduz o número de IA/concepção e tende a reduzir o intervalo entre parto-concepção; McDougall et al., 2016).

Para minimizar os prejuízos e aumentar a fertilidade de fêmeas acometidas por mastite é imprescindível utilizar o Maxicam 2% da Ourofino Saúde Animal em todos os protocolos de tratamento de infecções da glândula mamária. Maxicam 2% tem como princípio ativo o meloxicam que possui potente ação anti-inflamatória e é altamente seguro. Dentre os anti-inflamatórios existentes, o meloxicam é o que apresenta maior potencial anti-inflamatório sem efeitos adversos. Maxicam 2% é o único anti-inflamatório para bovinos à base de meloxicam do mercado brasileiro.

Referências Bibliográficas

Barker, A. R., F. N. Schrick, M. J. Lewis, H. H. Dowlen, and S. P. Oliver. 1998. Influence of clinical mastitis during early lactation on reproductive-performance of Jersey cows. J. Dairy Sci. 81:1285–1290.

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Fitzpatrick, C. E., N. Chapinal, C. S. Petersson-Wolfe, T. J. DeVries, D. F. Kelton, T. F. Duffield, and K. E. Leslie. 2013. The effect of meloxicam on pain sensitivity, rumination time, and clinical signs in dairy cows with endotoxin-induced clinical mastitis. J. Dairy Sci. 96:2847–2856

Königsson, K., H. Gustafsson, and H. Kindahl. 2002. 15-Ketodihydro- PGF2α, progesterone and uterine involution in primiparous cows with induced retained placenta and post-partal endometritis treated with oxytetracycline and flunixin. Reprod. Domest. Anim. 37:43–51.

Lavon, Y., Leitner, G., Klipper, E., Moallem, U., Meidan, R., Wolfenson, D., 2011. Subclinical, chronic intramammary infection lowers steroid concentrations and gene expression in bovine preovulatory follicles. Domest. Anim. Endocrinol. 40, 98–109. doi:10.1016/j.domaniend.2010.09.004

Lees, P., M. F. Landoni, J. Giraudel, and P. L. Toutain. 2004. Phar- macodynamics and pharmacokinetics of non-steroidal anti-inflam- matory drugs in species of veterinary interest. J. Vet. Pharmacol. Ther. 27:479–490.

McDougall, S., Abbeloos, E., Piepers, S., Rao, A.S., Astiz, S., van Werven, T., Statham, J., Pérez-Villalobos, N., 2016. Addition of meloxicam to the treatment of clinical mastitis improves subsequent reproductive performance. J. Dairy Sci. 99, 2026–2042. doi:10.3168/jds.2015-9615

Nava-Trujillo, H., Soto-Belloso, E., Hoet, A.E., Ahmadzadeh, A., Frago, F., Shafii, B., Wathes, D., 2010. Effects of clinical mastitis from calving to first service on reproductive performance in dual-purpose cows. Anim. Reprod. Sci. 121, 12–6. doi:10.1016/j.anireprosci.2010.05.014

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Schrick, F.N., Hockett, M.E., Saxton, A.M., Lewis, M.J., Dowlen, H.H., Oliver, S.P., Ahmad, Brackett, B.G., 2001. Influence of subclinical mastitis during early lactation on reproductive parameters. J. Dairy Sci. 84, 1407–12. doi:10.3168/jds.S0022-0302(01)70172-5

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Van Hecken, A., J. I. Schwartz, M. Depre, I. De Lepeleire, A. Dallob, W. Tanaka, K. Wynants, A. Buntinx, J. Arnout, P. H. Wong, D. L. Ebel, B. J. Gertz, and P. J. De Schepper. 2000. Comparative inhibitory activity of rofecoxib, meloxicam, diclofenac, ibuprofen, and naproxen on COX-2 versus COX-1 in healthy volunteers. J. Clin. Pharmacol. 40:1109–1120.

Por Bruna Martins Guerreiro, especialista técnica em Saúde Animal; Bruno Gonzalez de Freitas, especialista técnico em Reprodução Animal e Michele Bastos, gerente de produtos da Linha de Reprodução da Ourofino Saúde Animal

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