Artigos - Prolapso parcial de mucosa vaginal em vacas nelore: abordagem clínica e cirúrgica

21 dez 2015

Prolapso parcial de mucosa vaginal em vacas nelore: abordagem clínica e cirúrgica

O prolapso parcial de mucosa vaginal é uma alteração comum ao aparelho reprodutivo, mais comumente observada em vacas com idade superior aos 24 meses, gestantes ou não, manejadas em sistema intensivo (cocheira ou confinamento), superalimentadas (TONIOLLO & VICENTE, 2003; DIAS, 2007) e submetidas à aspiração folicular. Está relacionada ao relaxamento dos ligamentos pélvicos e perineais desencadeados pela gestação, peso excessivo, acúmulo de gordura perineal e aumento dos níveis séricos de estrógeno (JACKSON, 2004; ALVARENGA, 2006).

Clinicamente, na maioria das vacas, é possível observar exteriorização parcial da mucosa vaginal através da vulva quando estão deitadas, tornando-se novamente pouco perceptível quando a vaca se levanta. Nos casos mais graves a exposição da mucosa vaginal permanece aparente através da vulva, mesmo quando o animal está em estação (em pé), e podemos observar pequenas lesões (Figura 1). A parte prolapsada está sempre em contato com material contaminante como: esterco, capim, terra e uma grande quantidade de sujeiras encontradas no chão onde estes animais vivem (ex.: casca de arroz ou maravalha das baias/cocheiras). Outros órgãos podem ser observados na região prolapsada, tais como bexiga e alça intestinal (PRESTES & ALVARENGA, 2006).


Figura 1: Prolapso parcial de mucosa vaginal em vaca nelore. 

Os principais sinais clínicos são a exposição parcial ou total da vagina através da vulva, inquietação, lesões superficiais ou profundas na mucosa da porção prolapsada, às vezes, com grave dissolução total ou parcial do tampão mucoso, retenção urinária, prolapso retal secundário ao tenesmo, congestão venosa passiva com consequente desvitalização da estrutura prolapsada, vulvite, vaginite e cervicite.  Nas fêmeas gestantes pode ocorrer abortamento ou morte fetal por contaminação, com enfisema fetal (TONIOLLO & VICENTE, 2003; DIAS, 2007). Nos casos mais graves ou crônicos o prolapso pode ser permanente, apresentando feridas e necrose em determinados pontos de sua extensão (Figura 2) e até mesmo incluir a cérvix (PRESTES & ALVARENGA, 2006). Vacas com prolapso de mucosa vaginal podem apresentar corrimento vulvar, posterior sujo e odor nauseabundo, atraindo moscas e aumentando o risco de bicheiras nesta região. Tais sinais clínicos podem inviabilizar a aspiração folicular, inseminação artificial ou até mesmo a monta natural. Estes animais perdem o valor comercial e zootécnico, reduzem os lucros da produção e aumenta os custos devido à manutenção de vacas improdutivas no rebanho, justificando o diagnóstico precoce e o tratamento clínico e cirúrgico rápidos. 


Figura 2: Após tração manual da mucosa prolapsante é possível observar danos na mucosa.

Diversos tratamentos clínicos, procedimentos para contenção do prolapso ou manobras cirúrgicas estão descritos na tentativa de redução do prolapso, mas em sua maioria não resolvem o problema ou a resolução é temporária, sendo necessária a repetição dos procedimentos (TONIOLLO & VICENTE, 2003; RICHARD, 2007; PRESTES et. al.; 2008) ou uma combinação deles.

Para o pós cirúrgico, utilizou-se da terapêutica com antibióticos e anti-inflamatórios. Conforme o atendimento realizado em 06 animais, após o procedimento cirúrgico conhecido como vaginectomia parcial da mucosa prolapsada que corresponde a amputação da porção prolapsada (Figura 3), seguido de profilaxia pós-cirúrgica com o antibiótico Penfort PPU® e o anti-inflamatório Cortiflan, ambos em dose única. Outro produto com bons resultados em nossa experiência de campo foi o Ourotetra Plus LA, utilizado em dose única. O uso de antibióticos e anti-inflamatórios durante o pós-operatório é fundamental para a rápida recuperação dos animais submetidos à vaginectomia parcial. Nos casos de necessidade de continuidade de terapia antinflamatória, adotou-se o produto Maxicam 2% por ter boa atividade antinflamatória e não causar lesão gástrica ou depressão imunológica nos animais.


Figura 3: Procedimento cirúrgico de vaginectomia parcial.

 

Referências:

ALVARENGA, F.C.L. Patologias da gestação. In: PRESTES, N.C.; ALVARENGA, F.C.L.Obstetrícia veterinária. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. p.149-155.

DIAS, B.M.L. Clínica das espécies pecuárias e cirurgias corretivas. 2007. 60f. Relatório final de estágio (Licenciatura em Medicina Veterinária) - Universidade de Trás-os-Montes e Alta Douro, Vila Real.

JACKSON, P.G.G. Vaginal prolapse. In: _____. Handbook of veterinary obstetric. 2.ed. China: Elsevier, 2004. p.21-23;216-217.

HELLU, J. A. A. Descrição de duas novas técnicas cirúrgicas para o tratamento de prolapso vaginal em vacas zebuínas: vaginectomia parcial e vaginopexia dorsal. Cienc. Rural, Santa Maria,  2015. Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84782015005040528&lng=en&nrm=iso>. access on  05  Oct.  2015. Epub Aug 07, 2015.  http://dx.doi.org/10.1590/0103-8478cr20140528.

PRESTES, N.C.; ALVARENGA, F C. L. Obstetricia veterinária. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. p. 149-155.

PRESTES, N.C. et al. Prolapso total ou parcial de vagina em vacas não gestantes: uma nova modalidade de patologia? Revista Brasileira de Reprodução Animal, v.32, n.3, p.182-190, jul./set. 2008. Disponível em: <http://www.cbra.org.br/pages/publicações/rbra/download/RB 181%20Prestes%20vr3%20pag182-190.pdf>.

RICHARD, M.H. Surgical correction of abnormalities of genital organs of cows. In: YOUNGQUIST, R.S.; THRELFALL, W.R. Current therapy in large animal theriogenology. 2.ed. bMissouri: Saunders Elsevier, 2007.b p.463-472. Disponível em: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/B9780721693231500635>. Acesso em: 07 nov. 2011. doi: 10.1016/B978-072169323-1.50063-5.

TONIOLLO, G.H.; VICENTE, W.R.R. Patologias da gestação. In: _____. Manual de obstetrícia veterinária. São Paulo: Varela, 2003. Cap.V, p.43-64.

Ingo Aron Sousa Mello

Médico Veterinário Ourofino Saúde Animal

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