28 abr 2014

Vírus da Diarreia Epidêmica dos Suínos

Introdução

O Vírus da Diarreia Epidêmica dos Suínos (PEDv) vem causando prejuízos incalculáveis à produção de suínos em diversos países do Continente Americano, modificando o comportamento do mercado de suinocultura em nível mundial. A primeira ocorrência deste vírus foi em 1971 na Inglaterra, sendo incialmente denominado vírus similar da Gastroenterite Transmissível (TGEv), que causava alta mortalidade em leitões em diferentes fases de produção. Em 1977 foi dissociado do vírus da TGE, e então passou a ser chamado de PEDv (Wood, 1977). Desde então, o vírus foi identificado na República Checa, Húngria, Corea, Filipinas, China, Itália Tailândia, Alemanha, Espanha e Japão (Pospischil et al., 2002 & Song and Park, 2012). Somente em meados de março de 2013, este mesmo vírus ressurgiu nos Estados Unidos, e em poucos meses já atingiu 80% da suinocultura americana. Os primeiros estados americanos acometidos foram os de Iowa e Indiana, e logo em seguida mais estados indicaram a presença da doença, chegando ao total de 25 estados acometidos (Figura 1). Desde então, este vírus vem se espalhando de maneira devastadora em diversos países do continente americano, europeu e asiático. Os principais países acometidos até o momento são o México e Peru no 2º semestre de 2013, Japão em Outubro de 2013, Canadá em Janeiro de 2014, Colômbia em Março de 2014, (Figura 2).

Figura 1. Número de estados americanos acometidos pela PEDv em março de 2014.

Figura 2. Número de estados americanos acometidos pela PEDv em março de 2014.

Apesar de ser um vírus extremamente contagioso, é também espécie-específico, e, portanto; não apresenta risco algum para outras espécies animais, bem como para humanos, não sendo classificado como uma zoonose. Estimativas indicam que as perdas ocorridas nos Estados Unidos já atingiram a casa dos 3 milhões de suínos prontos para o abate. Dados fornecidos pelo Rabobank, no primeiro trimestre de 2014, demonstraram que até setembro de 2014 poderá haver uma redução de 27% na quantidade de cevados disponíveis nos EUA, Canadá e México (Figura 3). Uma estratégia que os produtores estão realizando em função desta redução de disponibilidade de animais é o aumento do peso de abate daqueles que sobrevivem para que haja uma maior oferta de carne no mercado.

Figura 3. Estimativa realizada pela AASV e Rabobank de falta de cevados no mercado americano, canadense e mexicano ao longo de 2014 e 2015.

Características do Vírus

O vírus da diarreia epidêmica dos suínos (PEDv) é um Coronavirus (Figura 4), da família Coronaviridae, causador de lesões nas vilosidades intestinais, levando à atrofia, e, consequentemente, à má absorção dos nutrientes ingeridos. Como já comentado acima, este vírus infecta somente suínos, não tendo importância em Saúde Pública. O Vírus da PED é um RNA envelopado, de cadeia única (monocatenário) de polaridade positiva, o que faz com que ele seja prontamente traduzido por robossomos e assim agindo como um RNA mensageiro (McOrist, 2013). Talvez essa seja uma das explicações de sua rápida disseminação. Segundo Pospischil et al. (2002) o PEDv possui uma boa estabilidade em pH variável, em média de 5 a 9, sendo bastante resistente, e, portanto, não sendo o pH uma boa metodologia para inativá-lo. Em temperatura ambiente pode sobreviver até 2 semanas, pode ser inativado em temperatura de 60 ºC por 30 minutos, sendo, portanto, bem resistente. Além disso, possui 4 proteínas estruturais codificantes apresentadas na figura abaixo (Figura 4): - Spike (S); - Membrana (M); - Envelope (E); - Nucleocapsídeo (N). Segundo informações de pesquisas realizadas, há uma semelhança gênica de 99,5% entre as 3 primeiras diferentes estirpes/sorotipos do Coronavirus americano com o vírus asiático do ano de 2012 presentes no banco genético - National Center for Biotechnology Information -NCBIGenBank (Bi et al., 2012). Além desta semelhança os autores desta pesquisa (Huang et al, 2013) observaram linhagens distintas entre esses 3 sorotipos, o que segundo eles, certamente houve alguma introdução do vírus asiático no continente americano e a partir daí houve a ocorrência de sucessivas recombinações gênicas ao longo do tempo e que deram origem a estas novas formas do vírus. Entretanto, de uma maneira geral há uma grande discussão, pois os animais introduzidos ao EUA são oriundos do Canadá, e segundo informações o último lote de animais importados foi negativo ao vírus e não apresentam sintomatologia alguma. Portanto, há uma grande suspeita de que o vírus deva ter sido carreado por alguma outra forma que não pelo transporte de animais infectados.

Figura 4. Figura representativa do Vírus da PEDv.

Epidemiologia

Segundo dados de Goede et al. (2014) até o presente momento há um total de 680 granjas de suínos já positivas para a PEDv nos Estados Unidos, totalizando 2.300 milhões de matrizes, o que representa 40% da população de suínos positivas para a PEDv. Atipicamente este é um vírus de rápida disseminação, apresentando um período de 12 a 36 horas em infecções experimentais (Kim et al., 2000), sendo sua presença detectada em conteúdo intestinal em 12 horas após a infecção (Linhares, 2014a). De acordo com a literatura, depois de infectado o animal permanece excretando o vírus para o ambiente em média de 7 a 10 dias. Entretanto, segundo pesquisas recentes, esta excreção tem ocorrido em média de 21 a 30 dias, e caso o animal apresente uma reinfecção ele voltará a excretar vírus pelas fezes por mais 20 a 30 dias ambas as excreções em alta concentração viral (Yoon et al., 2014). Segundo dados obtidos de diversas granjas nos EUA no momento em que a fêmea se infecta, ela leva de 4 a 5 semanas para criar uma resposta imune contra o PEDv. Durante este período, há um alto percentual de mortalidade, chegando a 100%, e após este período as fêmeas passam a transferir esta imunidade via leite, e então, contribuindo positivamente para a redução gradativa da ocorrência de mortalidade até voltar a patamares zootecnicamente aceitos (Gráfico 1).

Gráfico 1. Distribuição do percentual de mortalidade após a introdução da PEDv na semana 0 e o comportamento deste percentual com o passar das semanas.

Formas de transmissão

A excreção do vírus ocorre através das fezes, sendo esta a principal fonte de infecção. A quantidade do vírus para se tornar infectante é muito baixa quando comparada a outros vírus, sendo que a concentração média de dose infectante para leitões é de 105 a 108 vírus. Esta característica associada a sua alta resistência às temperaturas mais adversas fazem com que o vírus se torne facilmente infectante. Um grande número de partículas virais pode ser transmitido através de um volume muito pequeno de fezes, sendo que cada ml de fezes pode conter de 1011 a 1013 vírus. As formas de infecção ainda não estão muito bem elucidadas, entretanto segundo dados de Schwartz & Main (2013) há uma gama de diferentes possibilidades de transmissão indireta, como caminhões, instalações de frigoríficos, pessoas, ar, pássaros, ração e diversos fômites, mostrando o vasto potencial de transmissão deste agente. Ainda estão sendo feitos estudos no intuito de elucidarem ao certo qual dessas formas seria a mais importante.

Patogenia

O Coronavirus possui causa, principalmente, danos nos enterócitos maduros presentes nas vilosidades intestinais ao longo de todas as porções do intestino delgado (ID), provocando severa atrofia nas suas vilosidades, sendo raramente identificados em colonócitos (células do cólon – intestino grosso - IG). O vírus da PED não foi identificado fora do TGI, como nos pulmões, linfonodos mesentéricos. Assim sendo não apresentam importância como agente de problemas respiratórios. O período de incubação da PEDv é em média de 12 a 18 horas. Os primeiros sinais de diarreia ocorrem geralmente de 24 a 36 horas após a infecção.

Sinais Clínicos

Este vírus é semelhante ao vírus da Gastroenterite Transmissível (TGE), entretanto possui diferenças antigênicas. Animais acometidos pela PEDv apresentam os seguintes sinais clínicos (Figura 5): - Anorexia; - Diarreia aquosa severa e amarelada em leitões de todas as idades, principalmente em leitões de 1 a 4 semanas de vida; - Quadros de Vômitos; - Desidratação intensa; - Alta mortalidade – praticamente 100% de mortalidade em leitões lactentes.

Lesões

As lesões macroscópicas presentes em quadros da PEDv não são patognomônicas, entretanto através da realização de necropsia é possível observar, ao abrir a cavidade abdominal, a presença de grande quantidade de líquido no interior das alças intestinais, demonstrando a presença de conteúdo líquido, característica marcante da PEDv (Figura 6).

Figura 6. Presença de grande quantidade de líquido nas alças intestinais (ID) e consistência aquosa da diarreia em amostra de fezes coletada.

As lesões microscópicas observadas na Histopatologia nos demonstram uma atrofia severa de vilosidades intestinais, o que faz com que a absorção de nutrientes fique prejudicada ou até mesmo completamente impedida (Figura 7).

Figura 7. Cortes histológicos mostrando vilosidades intestinais íntegras (à esquerda) e severa atrofia das vilosidades intestinais (à direita) de leitões infectados após 36 horas pelo vírus da PED.

Diagnóstico O diagnóstico deve ser realizado levando em consideração a epidemiologia, os sinais clínicos, como o aparecimento súbito de diarreia associada a uma alta mortalidade (de 40 a 60%). Além disso, deve-se levar em consideração análise histopatológica bem como análises laboratoriais. As análises disponíveis hoje são PCR (diversos tipos), histopatologia, e provas rápidas de campo (imunocromatografia) e sorologia (Kit sorológico – Minnesota). Há também a possibilidade de realizar testes de imunohistoquimica, microscopia eletrônica, entretanto ambas as técnicas possuem algumas limitações. No campo ou no laboratório pode ser extraído o RNA a partir de suspensões frescas de conteúdo intestinal com kits comerciais. Já existe kit de detecção rápida do vírus da PED, representado pelo Anigen Rapid PED Ag Test Kit (Bionote®). Este kit pode ser levado para a propriedade e a análise e resultado podem ser observados in loco, não havendo necessidade de encaminhar ao laboratório. Segundo Schwartz & Main (2013), apenas 10 mL de fezes ou conteúdo intestinal de leitões com sintomatologia aguda, dentro das primeiras 24 horas após o início da diarreia são suficientes para confirmar o diagnóstico de PEDv por PCR. Além da amostra de fezes, há possibilidade de diagnóstico do vírus PED através de fluidos orais e ração. Os diferentes tipos Coronavirus são muitas vezes difíceis de cultivar e o PEDv não é uma exceção, uma vez que a maioria das tentativas realizadas a partir de material de campo apresentaram pouco êxito.

Formas de Prevenção

Em países com diagnóstico positivo para o PEDv, as autoridades veterinárias estão solicitando aos produtores que sejam mais vigilantes com o transporte dos animais, roupas usadas pelos funcionários da granja e qualquer objeto que possa ter entrado em contato com o vírus. Há necessidade de muita cautela e cumprir todos os protocolos de biossegurança. Em granjas positivas, um dos manejos que estão praticando é o de desmamar todos os leitões, a fim de evitar alto percentual de mortalidade na fase de maternidade. Além disso, estão expondo as leitoas/marrãs ao vírus, para que após 4 a 5 semanas elas passem a produzir anticorpos (Ac) contra o PEDv, e assim estando imunologicamente preparadas para passar esses Ac a seus leitões na fase de lactação. Um ponto bem debatido e que deve se muito bem seguido para evitarmos a entrada do PEDv no Brasil, é a execução dos protocolos de Biossegurança descritos abaixo: - Monitoramento de Importação de material genético – testar animais na origem e no destino – Quarentenário protegido e com testes de diagnóstico eficazes; - Limpar e desinfetar caminhões de transporte de animais; - Evitar entrada de pessoas e/ou equipamentos; - Ações durante a Copa – efetuar uma fiscalização rígida pela ANVISA; - Fechar as granjas para visitação de pessoas estrangeiras, independentemente do país de origem; - Suspender a importação de matérias primas de origem animal – não mais utilizadas, ou caso haja necessidade de utilizar, realizar análise por PCR para verificar a presença ou não do vírus; - Utilizar roupas descartáveis; - Limpar e desinfetar as botas e/ou utilizar Propé; - Realizar todos os manejos básicos de granja com muita seriedade: Manejo de Colostro; Todos dentro todos fora; Limpeza e desinfecção muito bem realizada. Controle de vetores – roedores, moscas, pássaros; - Utilizar desinfetantes com comprovada ação viricida. Segundo trabalho desenvolvido por Pospischil et al. (2002), na tabela abaixo estão descritos os desinfetantes que possuem uma ação efetiva contra o PEDv. 

Tabela 1. Desinfetantes com ação efetiva contra o vírus da PED

Considerações finais Este é um momento muito delicado e que requer muita seriedade, profissionalismo e união, para que juntos possamos evitar a entrada deste agente em território brasileiro. Portanto, seguindo à risca todos os protocolos e processos de Biossegurança, certamente, teremos êxito em nos mantermos como país livre do vírus da PED.

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A Equipe Técnica e Comercial da Ourofino está à disposição para qualquer informação adicional necessária.  

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Andrea Panzardi

Supervisora Técnica Aves & Suínos – Região Sudeste

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