24 set 2018

Necropsia em suínos

O primeiro passo para a realização de uma necropsia é obter todas as informações possíveis da granja. Nesse levantamento deve incluir sistema de produção, protocolo de vacinação entre outros dados que permitam que com essas informações possa ser associado ao problema relatado na granja, como idade, sinais clínicos, taxa de morbidade/mortalidade e o manejo sanitário da granja para elaborar a suspeita clínica. Com isso a necropsia se trata de uma ferramenta adicional referente à monitoria patológica, com o objetivo de auxiliar o possível diagnóstico.

O animal a ser selecionado deve apresentar os sinais clínicos típicos de fase aguda da enfermidade que se deseja investigar, não deve ter sido submetido a tratamento, principalmente com antimicrobianos pensando em uma análise bacteriológica - e não deve ser um animal refugo, com características de doença crônica, garantindo assim que os resultados sejam os mais reais possíveis.

Para a realização da eutanásia em animais de campo é prudente seguir as diretrizes de práticas de eutanásia da Resolução 1000 determinada pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (2012), onde todo e qualquer método de eutanásia dentro dos permitidos devem ser realizados o mais rápido possível garantindo que a inconsciência anteceda o procedimento de eutanásia propriamente dita, reduzindo ao máximo o sofrimento do animal. Para leitões em fase de maternidade, o indicado ainda é a realização de traumatismo craniano. Já para leitões acima de oito quilos o indicado é o uso de eletronarcose seguida de eletrocussão com posterior exsanguinação, que consiste na secção de grandes vasos do pescoço (artéria carótida e veia jugular), porém este procedimento pode provocar alterações que devem ser consideradas na interpretação dos achados de necropsia.

No exame externo do animal já eutanasiado, deve-se avaliar o estado nutricional, mucosas visíveis, pelo, pele, ectoparasitos, úlceras cutâneas, manchas, nódulos, exsudatos, se existe qualquer tipo de corrimento nasal ou genital, se há presença de sangue. O animal deve ser avaliado minunciosamente como um todo antes de iniciar a abertura em si.

O animal pode ser posicionado em decúbito lateral direito ou em decúbito dorsal, sendo o primeiro utilizado em animais adultos e o segundo em animais menores. Se for decúbito lateral, os membros direitos são rebatidos e é feita uma incisão a partir do queixo até a região abdominal ventral, rebatendo a pele do tórax e abdômen, em seguida os músculos abdominais, inserção do diafragma e músculos do dorso devem ser cortados e, com auxílio do custótomo, as costelas devem ser removidas. Se for decúbito dorsal deve ser realizada incisões na região das axilas e na articulação coxofemoral, repousando os membros torácicos e pélvicos lateralmente é feita uma única incisão longitudinal mediana, do omento à sínfise esquiática.

Ao rebater a pele, o tecido subcutâneo deve ser avaliado, assim como os vasos, músculos e linfonodos superficiais. Antes de retirar os órgãos da carcaça, deve-se avalia-los quanto à posição, cor e tamanho. Se houver fibrina ou fluído na pleura, saco pericárdio ou abdômen, esse material deve ser colhido com seringa ou suabes estéreis. Caso for fazer alguma colheita para exame microbiológico dessas amostras e de fragmentos de órgãos que apresentam lesões, deve ser feita antes de manipulá-los para evitar contaminação.

A partir disso, é feita uma ressecção do monobloco torácico, que inclui língua, esôfago, traqueia, pulmão e coração. A pele do pescoço é rebatida e após o exame dos linfonodos, é feita uma incisão entre os ramos da mandíbula, cortando os músculos da sínfise, a língua deve ser tracionada em sentido caudal e as articulações do hioide são seccionadas. Nesse momento, devem-se avaliar tonsilas do palato mole, tracionando a língua em sentido ventral e caudal para liberar a traqueia e esôfago. Em seguida, é feito um corte no pericárdio e na altura do diafragma aorta, esôfago e veia cava caudal devem ser seccionados para liberar o monobloco torácico. Cada órgão e estrutura devem ser examinados de maneira detalhada quanto ao aspecto, cor, volume, forma e consistência, com atenção especial ao pulmão e coração que devem passar por exame mais criterioso.

Partindo para a cavidade abdominal, segue o mesmo critério de avaliação dos órgãos da cavidade torácica. Nos órgãos parenquimatosos como fígado, baço, rins e testículos, deve-se examinar a serosa, abrir vários segmentos e examinar a mucosa, e quando houver conteúdo coletar para análise.

O intestino é separado do mesentério e disposto em ziguezague para que o exame do órgão possa ser feito, além dos exames dos linfonodos mesentéricos. O conjunto estômago-fígado-duodeno-pâncreas é retirado e cada órgão deve passar por exame criterioso, sempre observando cor, aspecto, viscosidade e presença de corpos estranhos, atentando-se a qualquer tipo de alteração fora do comum. A abertura do intestino deve ser pela borda mesentérica, pois permite a visualização das placas de Peyer no intestino delgado. A abertura do estômago deve ser realizada pela curvatura maior e deve ser observada toda a mucosa, com um foco maior para a região do quadrilátero esofágico, região aglandular, uma extensão da mucosa esofágica em que há maior predisposição para a ocorrência de paraqueratose e úlceras gástricas.

O conjunto gênito-urinário e reto, inclusive com a genitália externa, ânus e região perineal são retirados e avaliados quanto à presença de exsudatos inflamatórios, sangue, cálculos. Os rins e os adrenais devem ser examinados também quanto à cor, volume, consistência, destacabilidade da cápsula, aspectos das superfícies externa e de corte, e lesões parasitárias.

Para exame das articulações, estas devem ser desarticuladas, sobretudo aquelas relacionadas a algum distúrbio de locomoção eventualmente mencionado na história clínica. Se atentar a presença de líquido sinovial, à cápsula articular e as superfícies das cartilagens epifisárias dos ossos envolvidos.

Para desarticular a cabeça, a articulação atlanto-occipital deve ser localizada e os músculos do pescoço seccionados, atrás dos arcos da mandíbula. A articulação deve ser seccionada com a faca, e os músculos e pele cortados até separar a cabeça do pescoço.

Para a remoção do encéfalo, a pele e os músculos da parte caudal da cabeça devem ser removidos e dissecados, assim como os ossos do crânio, a calota craniana deve ser forçada para trás expondo, assim, o encéfalo envolto pela dura-máter. Para observar a superfície do encéfalo recoberta pelas meninges, a dura-máter deve ser cortada com a tesoura e para remover o encéfalo os nervos cranianos devem ser seccionados.

Fonte: Menegat et al., 2016.

Figura 1. Sequência de procedimentos da técnica de necropsia. 1) posicionamento do cadáver em decúbito dorsal; 2) abertura da cavidade abdominal; 3) abertura da cavidade torácica; 4) liberação da língua para tração de língua, laringe, traqueia e esôfago; 5) abertura do estômago pela curvatura maior; 6) corte do fígado em fatias; 7) abertura da traqueia e brônquios, avançando pelo parênquima pulmonar; 8) abertura das câmaras cardíacas direita e esquerda; 9) remoção da calota craniana e exposição do cérebro.

Andrea Panzardi, Especialista Técnica em Aves & Suínos

Colaboração: Manuela Volpe

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