Artigos - Doenças do trato reprodutivo de bovinos leiteiros

21 mar 2016

Doenças do trato reprodutivo de bovinos leiteiros

As infecções bacterianas são frequentemente encontradas no ambiente uterino de vacas no pós-parto, e é uma das principais causas de infertilidade e subfertilidade, podendo persistir após tratamentos e causar prejuízos econômicos como gastos com medicamentos, aumento do intervalo entre parto e diminuição da produção de leite (Maia, 2006).

As principais causas relacionadas com as infecções uterinas são: natimorto, parto distócico ou gemelar, cesariana, retenção de placenta e retardo na involução uterina (Davidson et al., 1995), podendo ocorrer secundariamente a doenças metabólicas como febre do leite, cetose e deslocamento de abomaso (Mari et al., 2012), e ambiente endócrino, uma vez que, a formação do primeiro corpo lúteo após o parto e secreção de progesterona (P4), frequentemente, precede o estabelecimento das doenças uterinas (Lewis, 2004).

Os métodos tradicionais de cultura têm identificado uma grande quantidade de bactérias, destacando Escherichia coli, Trueperella pyogenes, Fusobacterium necrophorum, Prevotella melaninogenica, Bacteriodetes spp., Pseudomonas spp., Proteus spp., Streptococcus spp., e Staphylococcus spp (Knundsen et al., 2015).

Metrite

Metrite é uma doença sistêmica aguda devido à infecção do útero com bactérias, geralmente dentro de 10 dias após o parto. Metrite é caracterizada pela seguintes indicações clínicas: descarga uterina fétida vermelho-acastanhada pirexia (>39,5 o C), em casos graves, queda de produçãode leite, apatia, inapetência, desidratação e toximeia pode também estar presente (Drillich et al., 2001; Sheldon et al., 2006). (Fig. 1)  


Figura 1.  Secreção sanguinopurulenta  (Metrite - Rafael Rodrigues Correa).

Endometrites

As endometrites clínicas são caracterizadas pela presença de conteúdo purulento (> 50 % de pus) ou mucopurulento (aproximadamente 50 % pus, 50 % muco) nas secreções uterinas, ocorrem 21 dias após o parto e o animal não apresenta sinais clínicos. Fig. 2. Já a endometrite subclínica é definida por uma inflamação endometrial com ausência de conteúdo purulento nas secreções uterinas (Sheldon et al., 2006).


Figura. 2 Secreção uterina purulenta  (Rafael Rodrigues Correal)

Piometra

A piometra é uma doença do útero com acúmulo de exsudato purulento no lúmen uterino e presença de um corpo lúteo persistente (Sheldon et al., 2006). A infecção inibe a liberação de prostaglandina do endométrio, prevenindo assim a normal regressão do corpo lúteo. A produção de progesterona pelo CL persistente causa fechamento da cérvix causando distenção da mucosa uterina, acumulando exsudato no interior do lúmen (Olson et al., 1984).  (Fig. 3)


Figura 3. Corte transversal do corno uterino com conteúdo purulento (imagem lado esquerdo); Ovário com presença de corpo lúteo persistente (imagem lado direito).
(Rafael Rodrigues Correal)

A incidência das doenças uterinas é variável, uma vez que a maioria das vacas são capazes de se recuperar da contaminação até as primeiras cinco semanas pós-parto. No entanto, estudos reportam que 2-37% das vacas podem desenvolver metrite, 37-75% desenvolvem endometrite citológicas, e até 5%  desenvolvem piometra (Gilbert et al., 2005, Sheldon et al., 2008, Martins et al., 2010).

Diagnóstico

O diagnóstico rápido e a escolha do tratamento mais adequado são essenciais para minimizar os efeitos da ocorrência de infecções uterinas sobre a eficiência reprodutiva dos animais (Sheldon ; Dobson, 2004). Uma das medidas recomendada para a identificação de infecção uterina é a realização de exames ginecológicos no puerpério aumentando a eficiência reprodutiva do rebanho. Os métodos de diagnostico das infecções uterinas mais comuns são: palpação transretal, vaginoscopia e ultrassonografia, biópsia uterina, citologia e cultura bacteriana (Gilbert et al., 2005; Junior et al., 2011).

Tratamentos

O diagnóstico rápido e a escolha do tratamento são medidas essenciais para minimizar os efeitos da ocorrência de infecções uterinas sobre a eficiência reprodutiva dos animais (Sheldon; Dobson, 2004). No caso das metrites, a maioria dos estudos recomenda antibioticoterapia sistêmica, antitérmicos e fluidoterapia de suporte. No caso das endometrites o tratamento pela infusão intrauterina é o mais utilizado, podendo ser recomendado a antibiótico terapia sistêmica. As drogas de eleição para o tratamento da metrite e endometrites são: oxitetraciclina (longa ação) e cefalosporinas. Na presença de corpo lúteo, o que é mais frequente em quadro de piometra, o mais indicado é a prostaglandina F2α (Fig. 4).


 

Figura. 4. Opções medicamentosas para tratamento das infecções uterinas.

 

Referências:

Alvarez, R. H. Problemas reprodutivos no pós parto de vacas leiteiras. 2009. Artigo em Hypertexto. Disponível em: http://www.infobibos,com/Artigos/2009/ProblemasReprodutivos/index.htm. Acesso em 15/03/16.

Drillich, M.; Beetz,  O.; Pfutzner, A.; Sabin,  M.; Sabin,  H. J.; Kutzer, P. Evaluation of a systemic antibiotic treatment of toxic puerperal metritis in dairy cows. J. Dairy Sci., v. 84, p- 2010-7, 2010.

Junior, A. P. M; Martins, T.M; Borges, Á.M. Abordagem diagnostica e de tratamento da infecção uterina em vacas. Rev. Bras. Reprod. Anim., Belo Horizonte, v.35, n.2, p.293-298, abr./jun.2011. Disponível em www.cbra.org.br.

Knudsen, L. R. V.; Karstrup, C. C.; Pedersen, H. G.; Jørgen Steen Agerholm, J. S.; Jensen, T. K .; Klitgaard, K. Revisiting bovine pyometra—New insights into the disease using a culture-independent deep sequencing approach. Veterinary Microbiology, v. 175, p.  319–324, 2015.

Maia, R. R. Tratamento de infecções uterinas e bacterianas Inespecíficas em bovinos: Revisão de literatura. Rio de Janeiro, out. 2006.

Mari, G.; Iacono, E.; Toni, F , Predieri, P. G.; Merlo, B. Evaluation of the effectiveness of intrauterine treatment with formosulphathiazole of clinical endometritis in postpartum dairy cows. Theriogenology, v. 78, p. 189 –200, 2012.

Martins, T. M. Aspectos reprodutivos e produtivos de vacas da raça Holandesa e expressão gênica endometrial de receptores tipo toll e beta-defensina 5 após o parto. 2010. 137f. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária)- Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Veterinária, Belo Horizonte, MG, 2010.

Melo, R. P. Utilização de prostaglandina exógena em vacas leiteiras no pós-parto. Publicado em 08 de setembro de 2011. Disponível em: rehagro.com.br/plus/módulos/noticias/imprimir?cdnoticias=2254

Olson, J. D.; Ball, L.; Mortimer, R. G.; Farin, P. W.; Adney, W. S.; Huffman, E. M. Aspects of bacteriology and endocrinology of cows with pyometra and retained fetal membranes. Am. J. Vet. Res., v. 45, p.  2251–2255, 1984.

Sheldon, I. M.; Williams, E. J.; Miller, A. N. A.; Nash, D. M.; Herath, S. Uterine diseases in cattle after parturition. Vet. J., v. 176, p. 115–121, 2008.

Sheldon, I. M.; Lewis, G. S.; LeBlanc, S.; Gilbert, R. O . Defining postpartum uterine disease in cattle. Theriogenology, v. 65, p. 1516-1530,  2006.

Sheldon, I. M.; Dobson, H. Postpartum uterine health in cattle. Anim. Reprod. Sci. v. 82–83, p. 295–306,  2004.

Lewis GS. Steroidal regulation of uterine immune defenses. Anim. Reprod. Sci., v. 82-83, p. 281-94, 2004.

Gilbert, R. O.; Shin, S. T.; Guard, C. L.;  Erb, H. N.; Frajblat, N. Subclinical endometritis. Prevalence of endometrites and its effects on reproductive performance of dairy cows. Theriogenology, v. 64, p. 1879-88, 2005.

 

Rafael Rodrigues Correa

Especialista técnico em reprodução animal - Ourofino Saúde Animal

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