Artigos - Controle estratégico da mastite: protocolo de secagem

26 jul 2016

Controle estratégico da mastite: protocolo de secagem

É imprescindível que as vacas leiteiras passem por uma fase de descanso da glândula mamária entre cada lactação. Esse período seco é uma necessidade fisiológica e possui relação direta com a saúde do úbere e com a produção de leite. Estudos sugerem que a duração desse período pode variar entre 45 e 60 dias, onde intervalos abaixo ou acima do referido implicam em alteração da capacidade produtiva do animal na lactação subsequente. Entretanto, muitos produtores não dão a devida importância para condições sanitárias, nutricionais, de conforto e, principalmente, não utilizam esse período para controle estratégico da mastite na propriedade.

            O período seco da vaca pode ser dividido em três fases para facilitar o entendimento e elucidar a importância desse momento no processo produtivo. Após a última ordenha, inicia-se o período de involução ativa da glândula mamária, que pode ter duração de até quatro semanas. Devido à descontinuidade da ordenha, o leite se acumula nos primeiros dias após a secagem, acarretando aumento da pressão intramamária. Nessa ocasião, deve-se destacar o processo de formação do tampão de queratina no canal do teto, que ocorre em média de 1 a 2 semanas pós-secagem e funcionará como barreira física contra agentes patogênicos. Assim, o aumento da pressão intramamária verificado nesse período, associado ao atraso/não formação do tampão de queratina e à interrupção da desinfecção dos tetos (pré e pós-dipping da ordenha) promovem alto risco de novas infecções no início do período seco.

A velocidade de formação do tampão de queratina após secagem é um dos principais fatores de risco para a ocorrência de novas infecções. Essa velocidade está relacionada com a capacidade produtiva do animal e a fatores individuais. Aproximadamente 50% das vacas com produção acima de 21 kg de leite/dia ainda permanecem com o canal do teto aberto seis semanas após a secagem.

O período de involução estável inicia-se após a involução ativa e varia de acordo com a duração total do período seco. Nesse momento, a glândula está completamente involuída e apresenta-se altamente resistente à ocorrência de novas infecções. Por fim, tem-se a colostrogênese (de 2 a 3 semanas pré-parto), na qual ocorrem alterações hormonais associadas ao final da gestação e ao início da produção de leite. Nessa fase, é verificado o risco de novas infecções intramamárias devido ao aumento da pressão no úbere e à redução da capacidade de resposta do sistema imune (Figura 1).

Figura 1 - Taxa de novas infecções intramamárias durante a lactação e período seco (Adaptado de BRADLEY e GREEN, 2004).

 

Os principais fatores que acarretam a manifestação de mastite clínica no início da lactação ocorrem devido às infecções persistentes da lactação anterior e às novas infecções adquiridas no período seco. Diante disso, o protocolo de secagem (aplicação de antibiótico específico e selante de tetos, Figura 2) mostra-se uma estratégia eficaz para o controle da mastite, pois possibilita a cura de infecções subclínicas existentes no momento da secagem e previne possíveis infecções no período seco. Ainda, apresenta taxa de cura de mastites subclínicas superior ao tratamento durante a lactação e reduz a incidência de novos casos de mastites clínicas nas primeiras semanas após o parto.

Figura 2. Imagem radiográfica após aplicação de selante de tetos Sellat, evidenciando a mimetização do tampão de queratina, auxiliando na proteção da glândula mamária (Ourofino Saúde Animal, Brasil).

 

Estudos recentes compararam a eficácia da administração intramamária de Ciprolac Vaca Seca (ciprofloxacina, 685 quartos mamários) associado ao selante de tetos Sellat (subnitrato de bismuto) com o tratamento utilizando cefalônio anidro e subnitrato de bismuto (712 quartos mamários; FECKINGHAUS et al. , 2016). Os dados foram indicativos de que a associação Ciprolac Vaca Seca e Sellat apresentou eficiência de cura microbiológica de infecções intramamárias subclínicas semelhante ao tratamento utilizando cefalônio anidro e subnitrato de bismuto. No entanto, os quartos mamários tratados com Ciprolac Vaca Seca e Sellat apresentaram menor número de casos de mastite após o parto.

Prejuízos econômicos provocados pela mastite podem ser reduzidos com a utilização do Protocolo de Secagem Ourofino (Ciprolac Vaca Seca e Sellat) como uma das principais medidas para controle das infecções intramamárias nos rebanhos leiteiros.

                                                                                                                                                   

Bibliografia consultada

 

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BRADLEY, A. J.; GREEN, M. J. The importance of the nonlactating period in the epidemiology of intramammary infection and strategies for prevention. The Veterinary clinics of North America. Food animal practice, v. 20, n. 3, p. 547-568, 2004.

GREEN, M. J.; BRADLEY, A. J.; MEDLEY, G. F.; BROWNE, W. J. Cow, Farm, and Management Factors During the Dry Period that Determine the Rate of Clinical Mastitis After Calving. Journal of dairy science, v. 90, n. 8, p. 3764-3776, 2007.

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Bruna Martins Guerreiro

Especialista Técnica em Saúde Animal - Ourofino Saúde Animal

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