Artigos - Aspectos clínicos e práticos do estro das vacas

16 ago 2016

Aspectos clínicos e práticos do estro das vacas

Estro ou cio caracteriza-se como um comportamento específico que muitos mamíferos possuem. Comportamento, este, que traduz o período fértil da vaca, funcionando como um mecanismo que garante que a fêmea seja montada próximo ao momento da ovulação Fig 1. Ou seja, tal estratégia torna um evento invisível em um sinal visível ao exterior. No decorrer dos anos houve um amplo progresso no que se conhece sobre a fisiologia reprodutiva, sendo que muitos estudos abordaram especificamente o estro, desenvolvendo novas formas de detecção deste. Contudo, tais ciências ainda não são capazes de suprir a detecção do estro, havendo muitas falhas que levam a perdas econômicas. Segundo SENGER (1994), sua detecção incorreta está relacionada a um custo anual de 300 milhões de dólares na indústria leiteira dos EUA. Dentre as falhas que podem ocorrer durante a detecção podemos citar: os cios relacionados às vacas prenhes, como o cio do encabelamento; cio ocorrido antes de 45 dias do parto; e, por fim, o cio com infecção uterina.

Figura 1. 

Vacas gestantes geram, muitas vezes, o engano de que estão em período de estro, por demonstrarem comportamento clássico ao cio, como permanecerem paradas quando montadas, por exemplo. Estudos mostraram que aproximadamente 19% das inseminações foram realizadas em vacas prenhes, o que gera grande prejuízo econômico, tanto por não alcançar as metas previstas, como por perder muito do que já era garantido. Isto ocorre devido ao fato de que uma nova inseminação pode gerar aborto do feto já em desenvolvimento; além disso, há também o gasto com material e, principalmente, com o sêmen desperdiçado.

O fenômeno do estro acontece devido à atuação dos hormônios esteroides do ovário nos centros comportamentais do cérebro do mamífero. Mas a sua expressão é afetada por diversos fatores, sendo estes internos ou externos. Um destes pode ser o clima, pois em casos de extremo calor, o animal de produção leiteira, principalmente, entra em estresse agudo, o que afeta a produção de esteroides pelo folículo dominante, gerando consequências piores em países quentes, como o Brasil. Muitos dos estudos reportam um efeito sazonal no comportamento estral, vacas de corte são montadas mais frequentemente durante o estro que ocorre no inverno e a duração deste é maior durante o verão, mas com maiores intervalos entre as montas Tab 1.

Natureza do comportamento

Verão

Inverno

Primavera

Duração do estro

21,02 ± 0,35

18,73 ± 0,18

18,04 ± 0,19

Número de montas

49,51 ±0,28

61,52 ±0,44

39,69 ±0,43

Tabela 1. Tabela de efeito sazonal e comportamento estral.

Podemos citar também a herdabilidade do grau de expressão do estro, um fator interno da vaca, que mesmo sendo baixo permanece de grande importância. A duração da receptividade sexual e intensidade de estro são maiores em Bos taurus do que em Bos indicus, além de que raças de pelagem escura tendem a demonstrar comportamento estral mais intenso em comparação com aquelas de pelo branco ou vermelho. Abaixo seguem estudos de duração de cio em diferentes raças e categorias Tab. 2.

Autor

Raça

Duração do estro (h)

RAE et al (1999)

Novilhas Cruzadas

9,38 ± 0,7

ROCHA et al, (1999)

Novilhas Angus

8,52 ± 1,2

ROCHA et al, (1999)

Novilhas Brahman

6,65 ± 1,2

ROCHA et al, (1999)

Novilhas Cruzadas

11,90 ± 1,2

HERNÁNDEZ et al, (2002)

Vacas Angus

11 ± 4

HERNÁNDEZ et al, (2002)

Vacas Brahman

6 ± 7

HERNÁNDEZ et al, (2002)

Vacas Senepol

7 ± 6

DOVALLE et al, (1994)

Vacas Nelore

10,7 ± 2,3

Específica de gado de corte.

Autor

Raça

Duração do estro (h)

LOPEZ et al, (2004)

Holandesas primíparas

9,4 ± 0,6

LOPEZ et al, (2004)

Holandesas multíparas

8 ± 0,6

PERALTA et al, (2005)

Holandesas em lactação

7,8 ± 5,6

Específica de gado de leite.

Tabela 2. Duração média de cio: Bos taurus x Bos indicus

Outro fator que interfere na expressão e consequente detecção do cio é o pós-parto. É muito comum na primeira ovulação pós-parto, principalmente em vacas leiteiras lactentes, a ocorrência do cio silencioso. O retorno ao ciclo regular no pós-parto é um momento crítico para a eficiência reprodutiva, dado que o seu atraso provoca consequências na eficiência produtiva da fazenda. Um estudo com 267 vacas leiteiras em lactação demonstrou que aquelas com alta produção de leite (≥ 39,5 kg/dia) tiveram uma menor concentração sérica de estradiol nos dias de estro e menor duração deste, comparado às vacas de menor produção (≤ 39,5 kg/dia). Outro estudo que avaliou 5.883 estros evidenciou que a cada 1 kg ganho em produção de leite, havia decréscimo de 1,6% da atividade (número de passos). A claudicação (Fig. 2) é um fator clássico de inibição da expressão do estro e, portanto, sua detecção. Tal redução de expressão pode ser causada por óbvias limitações físicas, induzindo uma redução de frequência de comportamentos primários e secundários do estro. Vacas com problemas locomotores passam maior tempo deitadas e menos tempo em pé ou andando, mesmo durante o estro. Aqueles animais com afecções subclínicas do casco não sofrem interferência na intensidade da expressão do estro.

Figura 2. Causas de claudicação em bovinos.

A nutrição é outro ponto importante dentro da expressão e detecção de cio, já que a má nutrição ou perda de reservas do corpo (balanço energético negativo) afeta negativamente a expressão do estro. Alguns estudos sugerem que há variação circadiana do estro, ou seja, a expressão do cio ocorreria mais frequentemente durante o início da manhã e final da tarde. Há diferenças entre os estilos de confinamento quanto à expressão do estro, por exemplo: aproximadamente metade dos períodos de estro em vacas lactantes não foi detectado, em observação casual, quando estas estavam submetidas às condições do “tie stall”, quando comparado ao “free stall”.

O fluido vaginal e cervical é a primeira barreira física que o espermatozoide deve ultrapassar para chegar ao seu destino de fertilizar o óvulo. Contudo, tal barreira é necessária para uma melhor seleção dos espermatozoides e para dar continuidade à capacitação destes. Durante a fase folicular, o muco cervical torna-se mais abundante, aquoso e translúcido, menos viscoso, ou seja, mais fácil de atravessar. Já durante a fase luteal, este se torna mais escasso e viscoso, logo, mais difícil para o espermatozoide penetrar Fig. 3, 4.

Figura 3. Muco limpo.                                         

Figura 4. Muco purulento (sujo).

Sabe-se que o sinal mais pronunciado do estro é o fato de permanecer imóvel enquanto montada. Porém, muitas vacas não o demonstram durante todo o estro, o que aumenta de forma drástica as chances de não detecção do cio, nos casos em que optam por apenas observar o sinal de monta. Mas há outros sinais comportamentais também importantes durante o estro, chamados de sinais secundários. Os comportamentos mais intensos durante o estro em comparação com não-estro são: inquietação, cheirar a vulva de outra vaca, reflexo flehmen (o animal fica ereto, estende o pescoço e ergue a cabeça, abre bem as narinas, com pequena abertura da boca com enrolamento do lábio superior), apoiar a cabeça sobre o dorso de outra vaca, montar e ser montada sem permanecer, lamber, friccionar e praticar cabeçadas em outras vacas. Outro sinal comportamental muito pronunciado no estro, mas de extrema dificuldade de ser observado sem algum auxílio tecnológico, é o de aumento de atividade, evidenciado pelo aumento de passos dados pela vaca. Os dispositivos de auxílio à detecção variam de medidores de atividade (como os pedômetros), análises hormonais, entre outros. A taxa de detecção dos pedômetros varia entre estudos, mas normalmente permanece em cerca de 80%. Outra ferramenta de auxílio ao estro é o detector de monta, este aparelho permanece anexado ao sacro da vaca e indica quando esta foi montada ou não, além dele, pode-se utilizar de uma tinta ou adesivo Fig 5, 6. Suas taxas de detecção variam de 50% a 85%. Há, também, o medidor de temperatura, que detecta o aumento desta quando o animal estiver próximo ao pico de LH, durante o estro.

Figura 5. Marcação com bastão de cera

Figura 6. Marcação com adesivo

A ideal detecção de estro envolve todos os métodos possíveis para a melhor realização desta, como a combinação dos dispositivos de auxílio e a melhor forma de observação. Um estudo utilizou uma frequência de observação de 3 vezes ao dia, um dispositivo de detecção de monta e um “transponder” de atividade. Apenas a observação visual obteve uma detecção de 49,3%, o dispositivo de monta, 48% e o transponder, 37,3%. Já a combinação destes três sistemas gerou uma alta taxa de detecção, uma taxa de 80,2%.

O método desenvolvido para guiar os fazendeiros é baseado em períodos do dia (manhã e tarde). Ou seja, vacas com sinais de estro identificados pela manhã, devem ser inseminadas à tarde e aquelas observadas à tarde, devem ser inseminadas no início da manhã seguinte, segundo o método desenvolvido por TRIMBERGER. O momento da inseminação é o ato final do processo de detecção de estro. A eficiência da inseminação depende de inúmeros fatores, como já citado, contudo, um dos fatores mais importantes é a habilidade do inseminador para depositar o sêmen no apropriado local do trato reprodutivo da vaca (no corpo do útero, cerca de 2 cm à frente da cérvix) e no apropriado estágio do estro. O intenso treino de inseminadores ao redor do mundo é uma das maiores contribuições ao sucesso da aplicação comercial da inseminação artificial Fig. 7, 8. É sempre importante permanecer consciente sobre todos os fatores capazes de influenciar a expressão do estro e a sua detecção, para que, desta forma, seja possível manejar aqueles que possam ser mudados e aprimorados.

Figura 7. Ourofino oferece capacitação sobre reprodução em Guatapará (SP)

Figura 8. Inseminação em bovinos

Referências

Senger PL. The estrus detection problem: new concepts, technologies, and possibilities. J Dairy Sci 1994;77:2745–53.

J. Roelofs, F. López-Gatius, R.H.F. Hunter, F.J.C.M. van Eerdenburg, Ch. Hanzen. When is a cow in estrus? Clinical and practical aspects. Theriogenology, Volume 74, Issue 3, Pages 327–344, August 2010.

RAE, D. O.; et al Assessment of estrus detection by visual observation and eletronic detection methods and characterization of factors associated with estrus and pregnancy in beef heifers. Theriogenology, v. 51, n. 6, p. 1121-1132, 1999.

ROCHA, J. L.; MADUREIRA, E. H.; BARNABE, R.C. Características do estro e da ovulação em novilhas de corte mestiças sincronizadas e em novilhas e vacas Nelore com estros naturais, detectadas através do Sistema “HEAT-WATCH”. Revista Brasileira de Reprodrução Animal Anim., v.23, n.3, p.162-164, 1999.

Por Rafael Rodrigues Correa, especialista em saúde animal, e Giovana Rosa Luiz Alonso, estagiária do departamento de Novos Negócios da Ourofino Saúde Animal

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