Tratamento das afecções de cascos em bovinos

18 ago 2014

Tratamento das afecções de cascos em bovinos


Foto: Daniela Miyasaka

As afecções de casco em bovinos estão entre as principais enfermidades que acometem os rebanhos brasileiros, sendo responsáveis por aproximadamente 60% das causas de claudicação em animais dessa espécie (MARTINS et al., 2008).

Nas últimas décadas os problemas relacionados às enfermidades de cascos em bovinos vêm ganhando importância devido ao seu alto impacto sobre os gastos nas fazendas leiteiras, sendo considerados, juntamente com os problemas de glândula mamária e reprodutivos, como as principais perdas econômicas na pecuária leiteira. A claudicação causada por lesão nos dígitos pode acarretar perdas consideráveis sobre a produção de leite, com comprometimento de até 20% sobre produção. Além das perdas diretas na produção de leite, os problemas de casco também provocam diminuição da eficiência reprodutiva, aumentam a incidência de mastite, gastos com tratamentos, taxa de descarte, podendo chegar, em alguns casos, até na morte do animal (FERREIRA,2005).

A prevalência de cada tipo de lesão está diretamente relacionada com a presença de fatores predisponentes e sistema de produção (CRUZ, 2001). Dentre os principais fatores predisponentes podemos destacar acúmulo de matéria orgânica, alta taxa de lotação, excesso de umidade, terreno abrasivo, dieta rica em concentrado, tempo de permanência em posição quadrupedal, presença de estruturas que podem causar trauma no casco e dígitos (quinas e objetos pontiagudos), predisposição genética, entre outras.

A prevalência de afecções podais é significativamente superior em sistemas de confinados e semi-confinados quando comparado aos dos sistemas extensivos (RIBEIRO et al.,1992). Este fato se deve a dificuldade na higienização de suas instalações, pois quando se utiliza água, a umidade excessiva favorece o amolecimento dos cascos, tornando-os mais frágeis e susceptíveis a traumas. Entretanto, quando se opta em realizar a remoção dos dejetos somente por raspagem, normalmente ela se mostra ineficaz na remoção total da matéria orgânica do piso das instalações, o que também pode contribuir para a ocorrência dos problemas de casco, devido a maior concentração de agentes infecciosos no ambiente (ALLENSTEIN, 1981). Já nos sistemas extensivos as lesões ocorrem com maior frequência em decorrência de traumas por agentes mecânicos, como troncos e galhos de árvores nas pastagens, presença de piçarra, relevos montanhosos, irregularidade no piso dos currais (SILVEIRA et al., 2009), que causam soluções de continuidade que servem de porta de entrada para agentes infecciosos.

Segundo levantamento feito por Tomasella et. al. (2014) em uma fazenda com 1.600 bovinos (holandês preto e branco) e submetidos a um sistema free stall, o tipo de afecção podal mais encontrada foi a úlcera de talão, correspondendo 51,47% das lesões. Sua alta prevalência está diretamente relacionada ao fato de possuir uma superfície abrasiva, acarretando em um desgaste excessivo da superfície córnea (VERMUNT e GREENOUGH, 1995).

As afecções podais, em quase sua totalidade, são lesões contaminadas e que tem como principais agentes etiológicos o Fusobacterium necrophorum e o Dichelobacter nodosus. No entanto, outras bactérias também vêm sendo isoladas em cultivos laboratoriais, tais como, Escherichia coli e Staphylococcus spp. (FERREIRA, 2005).

O diagnóstico das enfermidades é feito de forma clinica por meio da inspeção dos dígitos e pelos sinais clínicos, que podem variar desde uma claudicação sutil até uma incapacidade de permanecer em estação ou relutância em se locomover.

Como na maioria das doenças a melhor forma de controla-la é por meio da prevenção, que nesses casos pode ser realizada com o casqueamento preventivo, pedilúvio, entre outras medidas.

Nos casos em que o animal que já apresenta alguma afecção podal, que provoque claudicação, recomenda-se a intervenção do médico veterinário. Dentre os principais tratamentos adotados estão a limpeza e curetagem do local para remoção do tecido necrótico e aplicação tópica e sistêmica de antimicrobiano. Ourotetra Plus LA* é um medicamento injetável, à base de oxitetraciclina, associada ao diclofenaco, de longa ação, que proporciona o combate da infecção, da febre, da dor e da inflamação, por um período prolongado. A oxitetraciclina é um antimicrobiano de amplo espectro que age tanto em bactérias gram-negativas, quanto em gram-positivas, age contra as principais bactérias presentes nas afecções de casco. O Ourotetra Plus LA* pode ser administrado em ruminantes tanto por via intramuscular profunda quanto, pela via subcutânea, na dosagem de 1ml para cada 10Kg de peso vivo (20mg de oxitetracilcina e 1 mg de diclofenaco por kg de peso corporal) ou ainda por infusão intravenosa lenta, com aplicações diárias de 1ml para cada 20 kg de peso vivo. Por se tratar de um medicamento longa ação, quando utilizado pela via intramuscular ou subcutânea, geralmente uma única aplicação é suficiente para o tratamento, podendo, em casos severos, ser necessário uma nova aplicação após 3 dias.

E lembre-se é muito importante a consulta do médico veterinário.

 

Referências

ALLENSTEIN L.C. Lameness of Cattle. Can.Vet. J. n.22, p.65-67, 1981.

CRUZ, C.E.F.; DRIEMEIER D.; CERVA C.; CORBELLINI L.G. In: CRUZ C.E.F.et al. Clinical and epidemiological aspects of bovine digital lesions in Southern Brazil. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., Curitiba, v.53, n.6, p.654-657, 2001.

FERREIRA, M.P. In: FERREIRA, M.P.et al. Sistema locomotor dos ruminantes. UFMG, Minas Gerais. Abr. 2005. 40p.

VERMUNT, J.J.; GREENOUGH, P.R. Structural characteristics of the bovine claw: horn growth and wear, horn hardness and claw conformation. British Veterinay Journal, v.151, p.157-180, 1995.

MARTINS, I.S.; FERREIRA, M.M.G.; ROSA, B.R.T. et. al. Laminite Bovina. Rev. Eletrônica de Medicina Veterinária, n.10, jan., 2008.

RIBEIRO, P.N.; BORGES, J.R.J.; RONCONI, M.A. et al. Incidência de afecções podais em bovinos de corte abatidos no Estado do Rio de Janeiro.Arq. EMV-UFBA, v.15, p.28-33, 1992.

SILVEIRA, J.A.S.; ALBERNAZ, T.T.; OLIVEIRA, C.M.C.; DUARTE, M.D.; BARBOSA, J.D. Afecções podais em vacas da bacia leiteira de Rondon do Pará.Pesquisa Veterinária Brasileira, v.29, n.11, p.905-909, 2009.

TOMASELLA, T.E.; FILHO, L.C.N.; AFFONSO, M.Z. et. al. Prevalência e classificações de lesões podais em bovinos leiteiros na região de Belo Horizonte-MG.Rev. Bras. de Higiene e Sanidade Animal, v.8, n.1, p.115-128, jan-mar, 2014.

João Paulo Oliveira

Discente, Medicina Veterinária UFU

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