Perdas gestacionais em bovinos

02 nov 2015

Perdas gestacionais em bovinos

A manutenção da gestação e a eficiente taxa de natalidade estão diretamente relacionadas com um bom índice reprodutivo do rebanho. Inúmeras causas, infecciosas e não infecciosas podem estar relacionadas à perda gestacional durante o desenvolvimento embrionário e fetal bovino.
​No Brasil as principais causas infecciosas estão relacionadas a agentes bacterianos, virais e protozoários. Esses agentes podem afetar a gestação em períodos distintos, estando a vaca já infectada ou contraindo o agente em determinado momento da prenhez.
O protozoário de maior importância nas doenças infecciosas reprodutivas é o Neospora caninum, considerado a principal causa de abortamento em vacas. Os fetos abortados possuem idade entre 3 a 9 meses e desencadeiam lesões características nos tecidos fetais, facilitando o diagnóstico, que poderá ser confirmado através de técnicas complementares. Os canídeos estão diretamente envolvidos no ciclo deste parasito, já que eliminam oocistos infectantes nas fezes e contaminam o ambiente na propriedade.
Os agentes bacterianos mais comumente relacionados à perda gestacional são Brucella abortus e Leptospira spp. A brucelose provoca abortos no terço final da gestação, além de alterações articulares e reprodutivas em machos. Para o controle dessa enfermidade é fundamental a vacinação de bezerras entre 3-8 meses de idade, conforme protocolo ministerial. A Leptospirose é outra enfermidade de origem bacteriana de caráter zoonótico e infeccioso, causada principalmente pelo sorotipo Leptospira interrogans sorovar hardjo. Provoca aborto nos bovinos no último trimestre gestacional, além de infertilidade.
Os agentes virais de maior relevância compreendem o Vírus da Diarreia Viral Bovina e o Herpesvírus tipo 1, responsáveis por significativo índice de abortos em levantamentos diagnósticos realizados no país. Na diarreia viral bovina as alterações no concepto são dependentes do período gestacional em que a infecção ocorre. A infecção antes ou após a cobertura ou inseminação artificial, pode resultar em infertilidade temporária, retorno ao cio, mortalidade embrionária, aborto, mumificação fetal, malformações fetais ou o nascimento de bezerros fracos e inviáveis. Infecção entre o 40° - 120° dias de prenhez poderão resultar na produção de bezerros imunotolerantes, persistentemente infectados (PI) com o vírus.
O Herpesvírus tipo 1 é responsável por causar a rinotraqueíte infecciosa bovina (IBR), que pode desencadear aborto, vulvovaginite, balanopostite, conjuntivite e doença sistêmica do recém-nascido. O índice de abortos por esta doença pode chegar a 25% em determinados rebanhos e o maior número de abortos se dá em torno do 5o a 8o mês de gestação. Algumas doenças como a neosporose, a diarreia viral bovina e a leptospirose apresentam-se de forma endêmica no rebanho, onde os animais que em algum momento de sua vida reprodutiva já foram infectados não irão manifestar a doença clínica, diferentemente daqueles que ainda não foram infectados, considerados soronegativos, que normalmente são as novilhas. Causas não infeciosas também contribuem significativamente para as perdas gestacionais. Entre elas fatores como déficit nutricional, estresse, trauma, distocia fetal e estresse térmico pelo frio ou calor. Causas secundárias (hipertermia, desidratação severa, septicemia, entre outros), devido a respostas fisiológicas da vaca a determinado agente infeccioso, como no caso da tristeza parasitária bovina e a mastite clínica, também devem ser considerados.  O estresse térmico pelo calor é um desafio a ser superado em regiões de clima tropical. À medida que a temperatura do ambiente eleva-se, acima do limite de homeotermia, os mecanismos termorreguladores do animal não são incapazes de dissipar todo o calor, provocando o estresse pelo calor, fator que eleva a temperatura uterina e pode acarretar em morte embrionária nos primeiros dias de gestação, período em que o embrião é mais sensível a temperaturas elevadas.
O diagnóstico etiológico das perdas de prenhez na propriedade depende de uma boa avaliação clínica e reprodutiva, e a coleta de materiais para exames complementares pode ser uma peça chave na determinação da causa. Quando da ocorrência de mortalidade embrionária poderá coletar-se o sangue das vacas com a finalidade de exames específicos (sorológico, virológico, etc) para investigação de condições infecciosas. Além disso, fatores não infecciosos devem ser investigados. A coleta de mais de um animal pode ser útil e essencial em alguns casos, como para o exame sorológico, a fim de se obter uma amostragem significativa do rebanho. Em se tratando de aborto, o feto poderá ser enviado refrigerado, ou fragmentos de órgãos mediante coleta por exame de necropsia, submetidos refrigerados e em formol a 10%, para exames microbiológico e histopatológico, respectivamente. A placenta e demais envoltórios fetais são indispensáveis para o diagnóstico. Na maioria das vezes, a avaliação desse material é associada ao exame do feto. Algumas doenças infeciosas causam alterações restritas a placenta e na ausência da mesma o diagnóstico pode ser prejudicado. Para o sucesso das taxas de natalidade na propriedade a determinação das causas de perda gestacional é fundamental, influenciando no controle sanitário do rebanho, assim, o manejo profilático poderá ser realizado corretamente.

 

Referências:

Antoniassi N.A.B. et al., 2013. Causas de aborto bovino diagnosticadas no Setor de Patologia Veterinária da UFRGS de 2003 a 2011.

Rocha D.R. et al., 2012. Impacto do estresse térmico na reprodução da fêmea bovina.

Junqueira J.R.C. e Alfieri A.A., 2006. Falhas da reprodução na pecuária bovina de corte com ênfase para causas infecciosas.

Nascimento, E.F., e Santos, R.L., 2003. Patologia da reprodução dos animais domésticos. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 137 p. 

Maiara Aline Gonçalves (1) e Daniele Mariath Bassuino (2)

(1)mestranda em Ciências Veterinárias; (2) doutoranda em Ciências Veterinárias - UFRGS. Setor de Patologia Veterinária

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