09 dez 2013

Manejo de Maternidade – Indução ao parto

Introdução

O manejo de maternidade está intimamente relacionado ao manejo do parto. Em função disso, preocupações em relação ao parto são fundamentais tendo como objetivo a obtenção de um maior número de leitões nascidos vivos por leitegada e de manter a saúde reprodutiva da fêmea, a fim de garantir a ela uma boa longevidade produtiva dentro do plantel. Portanto, o manejo do parto passa a ser uma atividade de extrema importância tanto para a fêmea quanto para os seus leitões, no intuito de que ele ocorra em um período adequado, sem ou o mínimo de intervenções e que seja oferecido aos leitões a oportunidade de mamar grande quantidade de colostro imediatamente após o nascimento para garantir a sua sobrevida imediata.

Momento do Parto

A espécie suína é corpo lúteo-dependente durante toda fase de gestação, portanto a manutenção da gestação depende da produção de progesterona (P4), cuja principal fonte são os corpos lúteos (Sherwood, 1982). O processo do parto é desencadeado por uma sinalização vinda dos fetos no momento em que eles já estão maduros e preparados para serem expelidos do útero e enfrentarem os desafios da vida extrauterina. Eles iniciam a liberação do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) em média 24h antes do parto que, por sua vez, estimula a produção de corticosteroides fetais (cortisol) pela adrenal dos fetos, a qual desencadeia uma sequencia de eventos endócrinos no organismo materno, e consequentemente iniciando o processo de contração uterina e expulsão dos fetos. Além de estimular a conversão de progesterona em estradiol nos dias que precedem o parto, o cortisol fetal estimula a síntese placentária de prostaglandina F2alfa (PGF2α) (Senger, 2003). Em suínos, a PGF2α estimula a liberação de prolactina e ocitocina, e a liberação de relaxina, hormônio responsável pelo relaxamento dos ligamentos da pelve (First et al, 1982) no intuito de facilitar a passagem dos fetos pelo canal cervical. Com base nestas colocações, o processo de parto pode ser dividido em três fases:  

- Período pré-parto: o primeiro estágio pode ser observado 10 a 14 dias antes do parto, quando há maior desenvolvimento da glândula mamária, acompanhada de hiperemia e edemaciação vulvar, além do relaxamento dos ligamentos pélvicos (Muirhead & Alexander, 2001). Nas imediações do parto, a fêmea se agita, deita e levanta com maior frequencia, há redução do apetite, irritação e mastigação constante, tentativa da fêmea em preparar o ninho. A partir de 12 horas, em média, antes do parto, há secreção de leite em gotas, indicando que a ocitocina está circulante (Meredith, 1995). A ejeção de leite em jatos pode ser observada 6 horas antes do parto, podendo ser indicativo de parto próximo. Esta fase culmina com a preparação do trato genital e do complexo mamário, havendo a dilatação da cérvix, aumento considerável das contrações uterinas, deslocamento dos fetos em direção à cérvix e aparecimento de secreção vulvar, às vezes sanguinolenta, caracterizando a ruptura da placenta (rompimento de bolsa). Como a pressão exercida na cérvix continua a aumentar, o primeiro leitão insere-se no canal cervical (Anderson, 1993).

- Período de parto: o período da expulsão dos fetos pode durar de 2 a 5 horas (Bollwahn, 1978), com intervalos em média de 10 a 20 minutos. Os leitões são expulsos pela associação das contrações abdominais e uterinas. A duração do parto está relacionada ao número de leitões da leitegada, ao estado corporal das matrizes, ao ambiente, aos cuidados adotados com a matriz, à ordem de parto das fêmeas, entre outras. Para melhor acompanhar o parto de fêmeas com possíveis riscos, deve-se consultar a ficha da fêmea e verificar se ela já teve parto(s) distócico(s) anterior(es), leitões natimortos e mumificados (Meredith, 1995). 

- Expulsão da placenta e lóquios: na terceira etapa, as contrações uterinas continuam, porém mais reduzidas (Meredith, 1995). Ocorre a expulsão das membranas fetais, podendo durar de 1-4h (Muirhead & Alexander, 2001). A placenta de cada leitão pode ser expulsa após o nascimento do leitão, de um grupo de leitões e as remanescentes após o nascimento do último leitão, culminando com o final do parto. Nesta fase, cessam as contrações, a fêmea pode levantar para urinar e beber água. Meredith (1995) ainda sugere uma fase adicional que é o puerpério, ou seja, o período de recuperação do endométrio até o estágio anátomo-fisiológico normal (involução uterina) que dura até três semanas após o parto.

Indução ao Parto

O manejo de indução ao parto é uma ferramenta muito útil e tem como intuito auxiliar o dia-a-dia do manejo de cada granja. Com o advento das prostaglandinas exógenas e seus análogos (PGF2α) associados ou não a ocitócitos, surgiu a possibilidade de induzir e sincronizar os partos para determinados dias da semana ou horas do dia, facilitando o trabalho de assistência ao parto. Segundo dados de Gheller, et al. (2009) a sincronização e concentração dos partos foi maior quando as fêmeas foram induzidas com Cloprostenol sódico comparado ao grupo não induzido. O objetivo de concentrar os partos é possibilitar que as observações sobre as fêmeas e os seus leitões possam ser intensificadas, permitindo assim: - Evitar o acúmulo de partos noturnos; - Concentrar do uso de mão de obra; - Intensificar assistência ao parto, reduzindo perdas de leitões durante e logo após o parto; - Realizar intervenções pontuais quando há dificuldades ao parto; - Reduzir a variação de idade dos leitões de uma mesma semana, melhorando a uniformidade de lotes; - Permitir um período lactacional semelhante entre as fêmeas; - Reduzir a variação de IDE entre matrizes; - Formar grupos para inseminação; - Possibilitar a avaliação de resultados zootécnicos; - Facilitar o “fechamento” da sala de maternidade (todos dentro-todos fora); - Facilitar vazio sanitário (todos dentro-todos fora). Apesar de a indução ser uma ferramenta muito vantajosa, é de fundamental importância que ela seja utilizada da melhor maneira possível para que não se transforme em problema ao invés de solução quando utilizada na granja. Um exemplo disso é o momento para a realização da indução. Para isso devemos nos remeter ao constante processo de Melhoramento Genético que as empresas de genética vem se dedicando há anos. Sabe-se que em função do avanço genético realizado constantemente em matrizes, o período da gestação aumentou significativamente, passando de uma média de 113 dias para uma média de 116 dias, totalizando um incremento médio de 3 dias. Em função disso, há concomitantemente a necessidade de readequarmos o momento de indução do parto a fim de não prejudicar a qualidade do leitão ao nascimento. Como a ação do Cloprostenol sódico (Sincrocio® - dose intramuscular – IM - 0,7 ml) (Figura 1) é a de mimetizar a ação dos corticosteroides secretados pelos leitões no momento em que eles estão aptos/maduros para desencadearem o processo do parto, exogenamente estamos “forçando” a expulsão dos fetos de dentro do útero da fêmea. Caso esta indução não seja realizada em uma data adequada, há uma grande possibilidade de comprometer o peso do leitão ao nascimento, a vitalidade e sua sobrevivência. Sabe-se que em média a partir dos 100 dias de gestação o ganho de peso diário (GPD) do feto varia de 60 a 80g/dia. Portanto, caso a indução seja realizada 2 dias antes da data prevista do parto, certamente estaremos perdendo por leitão uma média de 160g, o que quando multiplicado por uma média de 12,6 leitões nascidos vivos (NV) chega a um peso médio de leitegada de 2 kg perdidos. Uma maneira de calcularmos a data adequada para a indução é a de fazer uma estimativa individual de cada fêmea. Para isso deve-se fazer a média de duração das 3 primeiras gestações, e então terá uma média de duração de gestação de cada fêmea, e assim, a data mais apropriada para realizar a indução. No caso de primíparas (leitoas/marrãs) bem como secundíparas, seria interessante estimar o início do período gestacional através da data da 1ª inseminação artificial (IA), e então realizar a indução aos 115 dias de gestação para assim garantir um período de gestação de no mínimo 114 dias.

 Considerações finais

O atendimento ao parto visa maximizar o número de leitões nascidos vivos. Para isso, existem diversas tecnologias que podem ser empregadas na prática, neste caso a indução ao parto, que como abordado acima é de suma importância como uma ferramenta de auxílio à obtenção de resultados produtivos cada vez melhores. Entretanto, é necessária sua utilização de maneira criteriosa, de acordo com cada situação, para que seja possível extrair dela todo e seu melhor benefício.

Referências Literárias:Anderson L.L. 1993. Pigs. In: Hafez E.S.E. (Ed). Reproduction in Farm Animals. 6th edn. Philadelphia: Lea & Febiger, pp.343-360. Bollwahn W. 1978. Fortpflanzung. In: Comberg G. (Ed). Schweinezucht. Stuttgart: Verlag Eugen Ulmer, pp.65-87. First, N.L. Lohse, J.K. & Nara, B.S. 1982. The endocrine control of parturition. In: Cole D.J.A. & Foxcroft G.R. (Eds). Control of pig reproduction.ed. London: Butterworth Scientific, pp. 311-342. Meredith M.J. 1995. Pig breeding and infertility. In: Meredith M.J. (Ed). Animal Breeding and Infertility. London: Blackwell Science, pp.278-353. Muirhead M.R. & Alexander T.J.L. 2001. In: Muirhead M.R. & Alexander T.J.L. Manejo sanitario y tratamiento de las enfermedades del cerdo. Buenos Aires: InterMédica, pp.263-322. Senger, P.L. 2003. Placentation, the endocrinology of gestation and parturition. In: Senger P.L. (Ed.). Pathways to pregnancy and parturition. 2.ed. Ephrata: Current Conceptions, pp. 304-325. Sherwood, O.D. 1982. Relaxin at parturition in the pig. In: Cole D.J.A. & Foxcroft G.R. (Eds). Control of pig reproduction. London: Butterworth Scientific, pp. 343-375. Wentz I. Bierhals T. Mellagi A.P.G. Bortolozzo F.P. 2009. A importância do atendimento ao parto na melhoria da produtividade em suínos. Acta Scientiae Veterinariae. 37(Supl 1): p35-47.  

Andrea Panzardi

Supervisora Técnica Aves & Suínos Ourofino – Região Sudeste

Tags