Bem estar na avicultura

29 set 2014

Bem estar na avicultura

Atualmente a preocupação com a produção de alimentos é crescente e acompanha as perspectivas de aumento populacional. De acordo com o estudo da ONU (Organização das Nações Unidas) em 2013 a população mundial foi de 7,2 bilhões, com projeção de 8,1 bilhões em 2025 e de 9,6 bilhões em 2050, uma diferença de 25%, entre 2013 e 2050.

Neste contexto, a avicultura evidencia-se mundialmente na produção de proteínas de origem animal, tanto com a carne de frango, quanto a produção de ovos. Isto porque é uma fonte com preço acessível, de ciclo produtivo rápido e de alta produção. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) a previsão é que em 2020, a carne de frango passe a ser a carne mais consumida no mundo, ultrapassando a carne suína em cerca de 200 mil toneladas, fato nunca antes visualizado no cenário mundial.

O Brasil se destaca no mercado internacional como o terceiro maior produtor de carne de frango e como o maior exportador, em 2012 foram exportados 3.918 mil toneladas e com previsão de expansão de 24,9% para 2022 (FIESP, 2013). O consumidor brasileiro tem à sua disposição um produto de baixo custo e de excelente qualidade nutricional e sanitária, com uma gama elevada de produtos “in natura” e processados, como frango inteiro e cortes congelados, resfriados e industrializados na forma de: empanados, marinados, temperados, cozidos, entre outros. Deve-se ressaltar que a avicultura brasileira é reconhecida entre as mais desenvolvidas do mundo, com índices de produtividade excepcionais (UBA, 2008).

Para alcançar altos níveis de produção o Brasil e o mundo utilizam tecnologias que buscam integrar genética, nutrição e manejo, extraindo o máximo, em menos tempo e espaço. Este movimento de tecnificação e intensificação da produção gera conflitos em âmbito social e político, quanto ao bem estar dos animais criados nestes sistemas. Fato que levou o tema a ser assunto de diversos estudos e debates que visam encontrar soluções para o bem estar dos animais, mantendo a rentabilidade do negócio.

Antes de falarmos sobre o bem estar animal na avicultura se faz necessário o conhecimento deste conceito e seu histórico. No começo do século XX, iniciou-se a intensificação da produção, segundo FRASER e BROOM (2002) em 1970 o confinamento intenso de bovinos, suínos e aves já ocorria em diversos países. Neste momento da história ocorreu na Inglaterra a publicação do livro Animal Machines (HARRISON, 1964), com importante papel para o desenvolvimento do conceito moderno de Bem-estar, pois criticava as práticas utilizadas após a segunda Guerra Mundial, principalmente a utilização de gaiolas para as galinhas e vitelos e a produção de frango de corte em alta escala e densidade. Este livro ganhou destaque com a comparação dos animais com as máquinas, analogia que levou esta realidade a população em geral, que até então não tinha se atentado às condições em que os animais eram criados.

Em resposta ao livro e ao apelo social o governo Britânico criou uma Comissão Técnica composta por profissionais da veterinária, agronomia e zoologia, e os incumbiu de averiguar o Bem-estar dos animais de produção. Essa comissão ficou conhecida como Comitê Brambell, em homenagem a seu presidente. Em 1965 eles aceitaram a ideia de que os animais são capazes de sentir dor, sofrimento e emoções como raiva, medo, apreensão, frustração e prazer. Este fato é considerado um marco no estudo do Bem-estar animal, pois até então o censo comum acreditava que eles eram seres incapazes de sentir estas sensações.

Como consequência dessas mudanças foi nomeado o Comitê de Bem-estar de Animais Agrícolas (FAWC), que em 1979 criou um dos conceitos de Bem-estar animal mais aceitos até hoje, que são as Cinco Liberdades (FAWC, 2014):

1. Livre de fome e sede - pelo pronto acesso à água fresca e a uma dieta adequada para manter a plena saúde e vigor.

2. Livre de desconforto - proporcionando um ambiente adequado, incluindo abrigo e uma área confortável para descanso.

3. Livre de dor, lesão ou doença - por prevenção ou diagnóstico rápido seguido de tratamento correto.

4. Livre para expressar seu comportamento normal - pelo fornecimento de espaço suficiente, instalações adequadas e companhia de animais de sua espécie.

5. Livre de medo e angústia - assegurando condições e tratamento que evitem sofrimento mental.

Em 2013 a OIE (Organização Mundial de Saúde Animal) define Bem-estar animal como a forma com que eles lidam com as condições em que vivem e são obrigados a viver, devendo estar dentro dos padrões científicos de saúde, conforto, nutrição, segurança, capacidade de expressar seu comportamento natural e não sofrer situações desagradáveis, tal como: dor, medo e ansiedade. Desta forma para se alcançar o Bem-estar é necessário prevenir as doenças, realizar tratamento adequado e fornecer abrigo, manejo, nutrição e abate humanitário (OIE, 2013).

Segundo Molento (2005) as alterações fisiológicas e comportamentais podem indicar o Bem-estar, de acordo com a dificuldade que o animal sofre para se adaptar ao ambiente. Os estudos para determinar quais os melhores métodos para avaliar essa dificuldade de adaptação são os mais diversos e estão em constante renovação, ainda não existe um conceito ou metodologia completamente aceita entre a comunidade científica. Dentre os parâmetros mais utilizados para aferir o bem estar, podemos classificá-los em fisiológicos, ambientais e comportamentais (BROOM, 2011).

Os parâmetros fisiológicos são aqueles que nos permitem idealizar o funcionamento do organismo do animal e a existência de estresse ou dor. Podemos aferir temperatura corpórea, frequência cardíaca, respiratória e também níveis hormonais como por exemplo a corticosterona que nos fornece uma relação com os níveis de estresse do animal.

Parâmetros ambientais que possuem influência direta no Bem-estar das aves, como por exemplo: concentração de amônia, temperatura ambiental (DAMASCENO, et al. 2010), umidade, ventilação e densidade, são alguns dos principais aferidos.

Parâmetros comportamentais são atualmente os mais aceitos como indicadores de Bem-estar, já que alterações nos outros parâmetros refletem no comportamento (BROOM e MOLENTO, 2004). Podemos avaliá-los das seguintes formas: sua presença ou ausência, a frequência que ocorre em determinado período, a duração e a intensidade.

Nas aves alguns comportamentos como limpar as penas, espreguiçar-se, abrir as asas, ciscar e correr, podem ser avaliados como comportamentos naturais à espécie e sua presença é positiva ao Bem-estar. Pode-se observar também reações comportamentais relacionadas à agressividade como ameaça, perseguição, monta e bicadas, relacionadas aos ambientes estressantes e que em casos graves geram inclusive mutilações entre os animais, portanto sua presença é negativa ao Bem-estar (PEREIRA et al., 2005).

Ao conhecer os conceitos de Bem-estar e as maneiras de avaliá-lo a dúvida inevitável é: Como vincular a intensificação ao Bem-estar na avicultura? Este é assunto de muitas pesquisas e discussões, mas atualmente são princípios inversamente proporcionais e ainda não foi encontrado um ponto de equilíbrio entre eles.

Neste contexto a intensificação é impulsionada pela crescente demanda por alimentos acompanhando o avanço da população humana. Enquanto que o Bem-estar ganha apoio na crescente preocupação com os valores éticos que dizem respeito aos animais de produção. Isto tem ocorrido principalmente devido a dois fatores: a rápida urbanização da população durante o último meio século, combinado com seu aumento do poder aquisitivo. Por meio destas mudanças as pessoas passam a não buscar somente produtos baratos, mas procuram várias características qualitativas, dentre elas o Bem-estar animal (CRUZ, 2003 e NÄÄS, 2008).

Apesar da pressão social para a melhoria do Bem-estar dos animais de produção, a grande maioria não está disposta a arcar com o aumento de valor consequente destas mudanças. Bonamigo et al. (2012) realizaram uma pesquisa com consumidores de carne de frango da cidade de Curitiba-PR e concluíram que o preço da carne de frango é o atributo de maior importância para o consumidor, citado por 73,4% dos consumidores, sendo que apenas 3,7% dos consumidores citou o Bem-estar como atributo levado em consideração para a compra.

Frente a esta realidade, os criadores passam a se preocupar, com o fato de que melhorias no sistema de criação irão infligir diretamente nos custos de produção, o que gera insegurança, pois seus concorrentes podem permanecer livres destes custos, o que é um importante fator limitante aos progressos na área de Bem-estar. O que acarreta uma pressão para que exigências de bem estar sejam adotadas por todos os fornecedores de produtos de origem animal. Em países em desenvolvimento, a questão de quem vai arcar com os custos de uma melhor qualidade de vida aos animais de produção é a principal responsável por uma limitação de progressos na área (MOLENTO, 2005).

Estes pensamentos forçaram os governos a instituírem leis para conduzir a criação frente a questão do Bem-estar. Os pioneiros neste tipo de legislação foram os Europeus, que na década de 90 criaram Diretivas que estabeleceram medidas mínimas relativas a proteção dos animais de produção. O Brasil em conjunto com a União Brasileira de Avicultura (UBA) mais recentemente instituiu em 2008 os protocolos de Bem-estar para frangos, perus e para aves poedeiras. Estas leis abrangem princípios de manejo, como por exemplo, densidade, dimensões de gaiolas, disposição de bebedouros e comedouros, horas de luz, ventilação e temperatura. Além disso, abordam também o treinamento dos funcionários que atuam diretamente com os animais, pois são eles que podem influir diretamente na melhoria das condições dos animais de forma rápida. Na Tabela 1 pode se observar o resumo destas informações.

Tabela 1. Legislações relacionadas ao Bem-estar na avicultura (Brasil x União Europeia).

Linha do tempo: Bem-estar na avicultura

Pode-se perceber que através da linha do tempo e do que foi descrito, o Bem-estar na avicultura está em constante evolução e sofre pressão social para que estas mudanças ocorram de forma rápida e eficaz. Porém, encontra barreiras nas questões produtivas e financeiras, portanto a busca por inovações tecnológicas e de manejo são essenciais para firmar esta característica no sistema de produção. Além disso, é importante a conscientização dos consumidores sobre a qualidade do produto que ingere e uma divulgação relevante, para que desta forma passem a conhecer as características do produto, pois somente munidos de conhecimento serão capazes de distinguir as vantagens e aceitar o valor agregado. O Brasil apresenta um futuro promissor no cenário mundial de produção de proteína de origem animal, mas é necessário manter em sinergia com a evolução que ocorre no restante do mundo, para que desta forma permaneça preparado para as oportunidades que irão surgir.

 

Referências:

BONAMIGO, A.; BONAMIGO, C. B. S. S.; MOLENTO, C. F. Atribuições da carne de frango relevantes ao consumidor: foco no bem-estar animal. Revista Brasileira de Zootecnia, v.41, n.4, p.1044-1050, 2012.

BROOM, D.M.; MOLENTO C.F.M. Bem-estar animal: conceito e questões relacionadas - revisão. Archives of Veterinary Science, Curitiba, v.9, p.1-11, 2004.

CRUZ, C. R. Bem estar animal no cenário internacional. IV Simpósio Brasil sul de avicultura. Chapecó, SC-Brasil.

Disponível em: <http://www.cnpsa.embrapa.br/sgc/sgc_publicacoes/anais0304_bsa_cruz.pdf>.

Acesso em: 29 ago. 2014.

DAMASCENO, F. A., et al. Avaliação do Bem-estar de frangos de corte em dois galpões comerciais climatizados. Ciênc. Agrotec., Lavras, v.34, n.4, p.1031-1038, 2010.

FIESP; ÍCONE. Outlook Brasil 2023-projeções para o agronegócio, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais. São Paulo, 2013.

FWAC: Farm Animal Welfare Council.

Disponível em: <http://www.fawc.org.uk/>.

Acesso em: 27 ago. 2014.

HARRISON, R. Animal Machines-The New Factory Farming Industry. Vincent Stuart Publishers Ltd., London. 1964.

MOLENTO, C. F. M. Bem-estar e produção animal aspectos econômicos-Revisão. Archives of Veterinary Science. Curitiba, v.10, n.1, p.1-11. 2005.

NÄÄS, I. A. Princípios de Bem-estar animal e sua aplicação na cadeia avícola. Biológico, São Paulo, v.70, n.2, p.105-106, 2008.

OIE. Organização Mundial de Saúde Animal. Código sanitário dos animais terrestres. 2013.

Disponível em:<http://www.oie.int/en/international-standard-setting/terrestrial-code/access-online/>.

Acesso em: 28 ago. 2014.

PEREIRA, D. F., et al. Indicadores de bem-estar baseados em reações comportamentais de matrizes pesadas. Engenharia Agrícola, Jaboticabal, v.25, n.2, p.308-314, maio/ago. 2005.

UNIÃO BRASILEIRA DE AVICULTURA. Protocolo de bem-estar para aves poedeiras. São Paulo, jun. 2008.

Disponível em: <http://www.uba.org.br>.

Acesso em: 28 ago. 2014.

UNIÃO BRASILEIRA DE AVICULTURA. Protocolo de Bem-estar para frangos e perus. São Paulo, jun. 2008.

Disponível em: <http://www.uba.org.br>.

Acesso em: 28 ago. 2014.

Bruno Broggio; Daniela Miyasaka S. Cassol; Marcus Luciano G. Rezende; Amilton F. Silva

Tags